segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Vamos Flutuar!!

Hoje tive um programa família com meus pais. Fomos ao SP Market para uma matinê do filme Nosso Lar. Trata-se de uma superprodução nacional, beatificada pela Federação Espírita Brasileira e desvalida pela nossa crítica cinematográfica.

Li alguns artigos que alardeiam o filme como uma propaganda religiosa, depreciando suas qualidades cênicas e artísticas.

Confesso que tenho por hábito desconfiar das produções globais. Tudo que vem do monopólio das telecomunicações deve ser visto com maior critério, desconfiança e precaução.

No entanto, tiro o chapéu para esta produção. Vejo o cobre investido de maneira louvável e consciente.

No começo, com aquelas imagens do umbral, aqueles seres trevosos, e depois, com aquele jeito de falar dos mentores da colônia iluminada, a gente até chega a pensar que Nosso Lar é um filme doutrinário, espírita, maniqueísta. Dá-nos impressão de uma cartilha pomposa, cara e moralista. Mas depois, a magia cinematográfica acontece e a gente entra na história. O que se vê não é um filme espírita, mas um filme que fala do espírito humano, da derrocada da arrogância e da evolução emocional em prol de um sentido maior, cosmopolita e intimista ao mesmo tempo. O que vemos é um homem questionando seus valores e experimentamos com ele uma deferência à nobreza que se oculta em nosso íntimo.

Atuações e efeitos se aliam proporcionando uma experiência de elevação, independente de credo ou religião. Um filme que abre um portal de conexão com o que há de melhor em nós mesmos.

Atentem para a empregada negra da família do médico André Luiz. A extraordinária atriz Chica Xavier tem uma única fala, tão carregada de emoção e ternura que nos surpreende. Esse efeito só se consegue com o domínio da arte da atuação, digno da grande dama que a representa.

Repito. Nosso Lar é menos um filme espírita e mais um filme que fala do espírito humano, da essência que nos habita. Assistam, e permitam-se esta experiência.

sábado, 28 de agosto de 2010

Parla!!!


Aí vão algumas imagens da palestra na USF – Itatiba.


Fui muito bem recebido pela equipe docente e pela comissão organizadora. Fui tratado qual um rei. Quanto aos alunos, apesar da aparente timidez, acredito que algumas sementes foram plantadas. Se bem cuidadas, com certeza darão frutos.


Foi uma grande alegria partilhar do meu trabalho. É um tipo de reconhecimento que me faz perceber que estou trilhando o caminho certo, o que mais me alegra.

Mais uma vez agradeço imensamente a oportunidade. Pra quem perdeu, aguarde as próximas!!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O verdadeiro Avatar

Pra quem não sabe, recentemente estreiou “O último mestre do ar” (The last Airbender), título adotado para a adaptação da série animada originalmente batizada de Avatar: the last airbender.

Fiz questão de assisti-lo na companhia de um amigo que não tinha conhecimento da série (o Ponêis), exatamente para testar a eficiência da adaptação.
Meu amigo gostou muito e afirma ter entendido bem a estória, enaltecendo a boa mistura de filosofia oriental, artes marciais e fantasia.

Li a crítica de Luiz Zanin Oricchio no Estadão de sexta passada. Hoje, li a crítica, pouco mais favorável, do Luiz Carlos Merten. Ambos carecem de maior contextualização para seus textos.

Há muito que abordar sobre o filme mas vamos começar falando de seu diretor: M. Night Shyamalan. O cara é bom e não precisa fazer mais filmes para provar isso. Ficou conhecido do grande público com O Sexto Sentido, estourou na bilheteria e criou grande expectativa diante da crítica. A partir de então todos seus filmes seguintes foram taxados de pretensiosos e menores pela maioria dos críticos.
Eu sou suspeito para falar. Gosto muito do trabalho do cara. Tenho predileção pelos primeiros. O que mais venero é Corpo Fechado. Percebo alguns equívocos em suas produções e me parece que ele erra mais quando tenta corresponder às expectativas do público e da crítica. Fim dos tempos (The happening) é seu maior equívoco.

Night costuma acumular funções de roteirista, diretor e produtor. Em termos cinematográficos isso tende a garantir maior independência e autonomia para o autor.

Em The Last Airbender percebo alguns equívocos. Começando pelo excesso de narração, comumente usado para aglutinar conteúdo quando falta tempo. George Lucas já mostrou, nas suas mais recentes produções, que, se não for bem usado, o excesso de texto só complica a vida do expectador. Na série animada a primeira parte do compendio foi dividida em cerca de 20 episódios. Entendo que é difícil aglutinar tudo isso em menos de duas horas, mas trata-se de uma adaptação. Por que tentar ser literal ? A insistência em explicar certas cenas omitidas ao público através da narração da personagem Katara pode acabar por deixar-nos meio perdidos ou entediados. Outra frustração é o excesso de cor. Talvez na tentativa de adequar a produção para o público infantil Night deixou de lado a escuridão e os tons sombrios que deixariam a estória muito mais intrigante. Durante toda a primeira parte da série animada, o senhor do fogo é exibido entre a penumbra e uma cortina de chamas, dando-lhe aspecto muito mais assustador. No filme ele é exibido de cara limpa, sem mistério.

Apesar de conseguir manter alguns elementos fortes da série e de fazer bom uso dos recursos gráficos (o Apa ficou super fofo) o filme perde em elementos que costumavam ser melhor explorados pelo diretor em outras produções, como a fotografia e a narrativa. Night já trabalhou explorando formidavelmente seus atores mirins. Em The Last Airbender são bons, mas nem tanto. Parece-me que a atriz Nicola Peltz foi uma má escolha para uma personagem forte como Katara. Já protagonista e antagonista (Aang e Zuko) me transmitiram maior domínio na expressão da angustia de seus personagens.

A série animada foi dividida em três “livros”: Agua, Terra e Fogo. Apesar dos protestos dos fãs nunca existiu a 4ª temporada: Ar.
Assim, trata-se de uma trilogia. Até onde eu sabia, os 3 episódios forma rodados em concomitância. Gostaria que o diretor trata-se a série com mais maturidade, mas temo que isso não vá acontecer.

Falando da série animada, foi o que de melhor surgiu na TV nos últimos tempos. Apesar dos elementos orientais, não é um anime. É uma produção norte-americana muito bem conduzida, recheada de elementos fantásticos, filosofia, ação e bom humor. Um desenho de conteúdo que não trata o expectador infantil como imaturo. É uma série que amo.

Sinto pela fraca adaptação e posso afirmar que é minha primeira decepção com um diretor que também adoro.
Mas tem sido essa a sina de Hollywood: pasteurizar conteúdos e tornar superficial o que era profundo. Uma pena que M. Night Shyamalan tenha também por aí se enveredado.

Para quem que saber mais sobre o verdadeiro Avatar, indico o site Mundo Avatar.

Para dar uma noção da profundidade da série, vejam este trecho do livro 2, Terra:


E por hora, que queime no inferno o cara que teve a idéia de refilmar Karatê Kid. Senhor Miage forever!!!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Semana da Psicologia


É com muito prazer que anuncio minha participação como palestrante na Semana da Psicologia da Universidade São Francisco - Campus Itatiba.

Estarei lá nesta sexta-feira, 27 de agosto, as 8h00, apresentando o tema "Contribuições da Psicologia para a produção cinematográfica".

Maiores detalhes no site da USF.

Até lá!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sonhando acordado!!

Assisti A Origem (The Inception - 2010).



Para psicólogos e estudiosos da mente e do inconsciente, trata-se de um prato cheio.
O acesso às camadas do subconsciente, os atos falhos e auto-sabotagens, os sonhos lúcidos. É um filmaço.


O assunto em si não é novidade. Gosto muito de “A morte nos sonhos(Dreamscape)”, estrelado por Dennis Quaid em 1984, que aborda exatamente o sonho lúcido e o sonho compartilhado, com a presença dum assustador homem-cobra.

Podemos apreciar o tema, de maneira mais documental, em Waking Life, de Richard Linklater, um filme tão peculiar que funciona quase como uma pancada na cabeça.
Tem até um filminho bem mais bobo, dirigido por Jake Paltrow, O Sonho Comanda a Vida(The Good Night), que também trata desse topico, levianamente.

O sonho ainda é um mistério para a ciência. Falando de forma simplista, seriam imagens do inconsciente geralmente associadas a situações do nosso cotidiano que, durante o sono, povoam nossa mente.
O sonho teria uma função organizadora e fundamental para o bom funcionamento de nossos pensamentos.
Imagine uma grande biblioteca. Durante o dia, varias pessoas vêm e pesquisam os mais variados assuntos. Solicitam diversos livros. Lêem dramas, aventuras, romances. Ao final do expediente cabe a bibliotecária organizar o recinto, alocar cada volume em sua devida estante, a fim de que, no dia seguinte, as pesquisas e consultas possam voltar a ocorrer normalmente.
Até certo ponto os sonhos funcionariam como a bibliotecária do nosso cérebro. Mas movidos por forças, a priori, incontroláveis e inconscientes.
Às vezes, espontaneamente ou a partir de técnicas, podemos interferir no andamento dos sonhos e então conduzi-los de forma consciente, produzindo sensações e experiências de acordo com nossa vontade. Isso seria o sonho lúcido.

O sonho lúcido seria a porta para outros fenômenos como premunições, retrocognições, clarividências e até EFCs.
Experiências fora do corpo (OBEs – Out of Body Experiences), também conhecidas como viagens astrais ou desdobramentos, são fenômenos controversos do ponto de vista da ciência. Resumidamente, existem duas linhas de estudo. Uma aponta tudo como fenômenos da mente, alucinações visuais e tácteis que dão a impressão de flutuação, visualização do próprio corpo sobre a cama, etc. Outra linha aponta a real possibilidade de separação entre o ego,centro de discernimento do nosso ser, e o complexo corpo-mente. Ou seja, nosso “Eu” transcende nossa mente.
Existe muita coisa a se falar sobre isso. Quem tiver interesse, indico o IIPC. Mas recomendo sempre ressalvas quanto a seus métodos. Afinal, fundamentalismos geram anacronismos.

Enfim, tudo pra falar que o Christopher Nolan acertou de novo. O assunto é interessantíssimo, as cenas de violência estão na medida, a trama é super bem conduzida e todo o elenco trabalha muitíssimo bem. É o tipo de filme que faz você sair do cinema com a sensação de que cresceu um pouco durante aquelas duas horas.

E com vocês, um clipe que eu adoro:



When you close your eyes, the adventure begins!!!
Bienal Macabra

Sexta-feira 13. Agosto, o mês do cachorro louco.

Nada melhor do que encontrar entusiastas do universo vampírico e seres afins.
Estive na Bienal do Livro, contemplei uma agradável palestra com a nata da literatura das sombras no Brasil: Martha Argel, Giulia Moon e André Vianco.


De quebra,ainda consegui uns autógrafos.









O mais importante destes encontros é o efeito estimulante em novos escritores. Vários jovens relataram em suas perguntas e testemunhos a gana de escrever gerada a partir do contato com a obra dos entrevistados.

Interessante que no Caderno 2 do Estadão de 15 de agosto último figurou uma matéria assinada por Lygia Fagundes Telles descrevendo a preponderância de seu encontro com nada menos que Monteiro Lobato, quando esta ainda duvidava das próprias aptidões literárias.
Tais encontros podem ser tão instigantes quanto a benção das musas.

Mas voltando à sexta-feira das bestas, nada poderia ser mais estimulante para um aspirante a cineasta do que encontrar um dos ícones do cinema brasileiro: José Mojica Marins, o Zé do Caixão.
No evento no stund do SESC, Mojica não negou que para fazer cinema no Brasil é realmente preciso apelar para as forças sobrenaturais.



A Bienal do Livro é um evento comercial de cultura. Estruturalmente, pouca coisa muda a cada edição. Mas é na possibilidade desses encontros que reinam seus méritos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


Faz tempo que não publico nada novo por aqui. Sou assim, um homem de fases. Escrevo, desenho, pinto e danço quando inspirado. Às vezes fico meses só assistindo TV e balançando na minha rede, quase em coma, encubando. De repente, raios de criação fluem pelas têmporas e me consumo de ansiedade na gana de concretizar de alguma forma tudo que me habita.

Enfim, não sei se alguém ainda visita esse blog ou se pára realmente pra ler algo, mas se existe algum público, é também para vocês que este espaço existe,respeitando, principalmente, a minha necessidade de expressão.

Neste mês de agosto entrei de férias. Comprei um charuto cubano, um pisco chileno e uma playboy da Cléo Pires, achando que poderia degustar tudo isso no sossego de minha rede, mas tem tanta coisa acontecendo...

Nos posts à seguir vocês verão minha rápida passagem pela FLIP em Paraty, reflexões cinematográficas geradas por um liquidificador falante e um tempo para deleite junto da dama do folclore nacional.

Este mês ainda promete pois tem a Bienal do Livro, show do Dominguinhos, teatro, cinema, palestra e muita curtição pra rolar.

Não estranhem se os posts pararem novamente por período indeterminado. Não sou urso, mas a qualquer momento posso entrar em hibernação.

Aproveitem e até breve
A velha dama e um tempo quase perdido



Há algum tempo que planejo assistir às gravações dos dois melhores programas da TV Cultura (depois do “Provocações”): Senhor Brasil e Viola minha viola.

Entrei em contato com a produção da TV e fiquei a par dos esquemas de caravana e etc. O Viola é gravado às 4as feiras. É preciso fazer inscrição por telefone ou email com pelo menos duas semanas de antecedência. Para Caravanas é necessário até um mês de antecedência no agendamento.
Uma vez inscrito e tudo acertado, a espera é de mais de uma hora para o inicio das gravações. Justificado por se tratarem de exibições musicais sem playback. É preciso ensaiar e passar o som várias vezes.

Fui contemplado nesta 4ª feira, 11/08/2010, com as gravações do programa a ser exibido provavelmente no dia 29/08.

No começo até assusta a quantidade de velhinhos que vão ás gravações, alguns assíduos. Primeiro entram as caravanas, depois os independentes chamados numero a numero como num bingo.

A grande dama, madrinha de inúmeros músicos e cantores, principal difusora do folclore nacional, já ostentando o peso da idade, chega com pés inchados e dificuldades para caminhar. Porém, sempre bela e vaidosa.
Fomos agraciados com a Banda de Pífanos de Caruaru e a dupla Zico e Zeca. Não bastasse, ainda teve o Caçulinha e um emocionante número final em que todas as marcas do tempo sumiram da amada Inezita quando ela soltou a voz e a alma ecoando o cântico dos caipiras.


Lindo! Lindo!

Mas precisamos fazer algo a respeito. O Público desse programa é de idosos em sua maioria. A Inezita tá com 85 anos. Temo que, com sua partida, desapareça também parte de nossa cultura. Por isso devemos apresentar ao público, desde cedo, esta riqueza. Proponho levarmos as crianças e os jovens para aquela platéia para que, junto com aquela alegre gente velha, o intercambio aconteça e a cultura caipira não feneça.
Apelo à TV Cultura e às escolas que, desde o maternal, proporcionem esse reencontro das raízes brasileiras. Vamos levar as escolas para o Viola! Ói que bacana!!

Viola Minha Viola é um programa para qualquer idade.
Cinema vitaminado

Há muito tempo no cinema nacional não acontecia algo tão bom quanto “Reflexões de um liquidificador”. O roteiro de José Antônio de Souza não perde em nada para as obras de Charlie Kaufman.

Nada de bandido, nada de favela. Não que isso não seja importante, até como denuncia para o nosso cinema. Mas o Brasil não é só isso. A principal característica do povo brasileiro é a criatividade. E isso, esse filme resgata muito bem.
Tanto na produção em si quanto na sua estratégia de lançamento, “Reflexões” faz história. Pra quem não sabe, o filme está passando só no Espaço Unibanco. Toda exibição é precedida de um curta-metregem premiado. E nas sessões das 20h e 22h ainda há show de stund up comedi.

Fui na terça, 10/08/2010. Cheguei uns minutinhos mais cedo. Entrei e fiquei beliscando um salgadinho, pensando exatamente em estratégias de lançamento, em como trazer o público para a frente das produções nacionais. Rememorava a estratégia do filme da Bruna Lombardi, “O signo da cidade”, que foi lançado a R$1,00 no dia 25 de janeiro de 2008, como um presente para São Paulo. Quando de repente a Bruna e o Riccelli passaram na minha frente e sentaram ao meu lado, que nem um casal de jovens namorados. Me deu um puta dum arrepio que até suei. Depois da sessão até tentei falar com eles, mas lá tava cheio de famosos e eu não quis dar uma de repórter do TV Fama.

Mas falando do “Liquidificador”, tenho uma teoria. O eletrodoméstico representa a própria humanidade, adormecida na execução de suas funções, trabalhando como cabe ao objeto que cada um é. Até o momento que, por uma razão qualquer, criamos consciência. O ser desperta e deixa de ser coisa para ser “ser”. Como uma criança vindoura ao mundo, tudo é novidade e só importa degustar a experiência de cada momento, usando todo o livre arbítrio para jamais voltar à manipulação de outrem. Tem muito de taoísmo nessa história. Tem muito de Matrix nessa história. E tem muita poesia e gosto pela vida. Mas aparentemente é um filme de humor negro e moooorte.

Tive que parabenizar a Ana Lucia Torre por seu excelente trabalho. Quase que dô um abração nela, no meio daquele clima de reencontro de colegas de clube que ficou o saguão do Espaço Unibanco naquela noite.


Parabéns a Equipe.

Aos meus poucos leitores, um aviso: assistam em quanto é tempo. Diversão garantida!!
Robert Crumb passou pela FLIP.



Não sou lá grande conhecedor de sua arte underground. Li Fritz, the Cat. Li Blues. Baixei e curti de verdade as músicas do Cheap Suit Serenaders. Sou fã de seu jeito e arte únicos. Jeito e arte de quem não está ligando muito para os outros e vive no seu próprio universo, da própria maneira. Ganha a vida e faz sucesso exatamente por isso.

Desde maio que eu planejava participar de sua mesa na FLIP. As datas da feira coincidiriam com o início das minhas férias. Cogitei comprar um pacote de pernoites em uma pousada mas desde maio os preços e as reservas estavam inflacionados. Além disso, a venda de ingressos para as mesas literárias foi monopolizada pela ticketmaster (odeio essa empresa, mas somos reféns dela no que concerne a shows e eventos) e os ingressos para a mesa de Crumb acabaram menos de duas horas depois do inicio das vendas (assim disse a atendente).
Comprei um ingresso a R$10,00 para assisti-lo de um telão.



Crumb foi o chamariz, mas não o motivo principal de minha passagem por Paraty. Fiz um bate e volta de ônibus pela Reunidas. Saí de Sampa no sábado (07/08/2010) às 8h. Cheguei a Paraty por volta das 14h. Em frente à rodoviária avistei um ponto de informações para turistas e cheguei ao local da FLIP, a pé, facilmente.

Não foi minha primeira vez na cidade. Há 25 anos fui com minha família para Angra dos Reis e passamos alguns momentos em Paraty. Do que mais me lembrava eram as casas de arquitetura colonial, as ruas de pedra, as bonecas artesanais feitas de corda de sisal (que a cultura local já perdeu) e as jacas que caiam dos pés de maduras.
Desta vez, foi maravilhoso e estranho ao mesmo tempo. Maravilhoso ver a cultura transbordando por todos os lados. Crianças, jovens, velhos e adultos na festa do saber, celebrando cultura. Isso gera um ambiente engrandecedor. Porém, ele estava lá, travestido de boas intenções. Ele: o comércio. Muito de tudo era apenas marketing e oportunidade de giro do capital. O bestial capitalismo movendo tudo e todos. A gana do consumismo desenfreado. Mas já que o fundamento da sociedade atual é o consumo, que consumamos cultura.

Perverteram o Realejo em prol da venda de cerveja



Passeei, comi um peixe com camarão e suco de pitanga, encontrei pessoas interessantes. Conheci uma figura tão curiosa quanto o próprio Crumb: o Homem-Borboleta, que até me deu aulas de história.

Finalmente, por volta de 19h, a tão esperada presença de Robert Crumb. Ver uma entrevista desse cara no Brasil é algo tão inusitado quanto testemunhar o cometa Halley. O homem é quase um eremita, auto-exilado numa cidadela francesa. Não dava para perder.
Quem gosta, provavelmente já leu a respeito nos jornais, mas meu relato e livre de mazelas, nu e cru. Erraram feio ao escalar o Sérgio Dávila para mediar a mesa. Respeito sua carreira profissional, mas o cara é correspondente de guerra, Pô! Que que isso tem a ver com quadrinhos?!? Magrão, de Barba, sandálias... será que suspeitavam que o Crumb era o Bin Laden disfarçado?? Porra, com tanta coisa interessante pra perguntar foram mandar aquela velha história de “o que você acha da mulher brasileira?”. Por isso que todo estrangeiro que chega aqui acha que toda brasileira é puta!
Robert Crumb foi o pai dos quadrinhos underground. Mas hoje ele é cult-geak-pop. Era simples perguntar: Na sua concepção, o que é underground hoje? Porra, a oportunidade de questionar um cara do “contra o sistema” que virô produto. O que é “contra o sistema” hoje? Mas não. Ninguém é capaz de pensar numa pergunta dessas, simplesmente porque tá todo mundo robotizado, seguindo sua programação, incapaz de pensar de forma independente. Todo mundo no sistema porra! Daí colocaram aquela megera (nitidamente uma neurótica controladora) da esposa do Crumb pra fazê propaganda da porra do livro egocêntrico dela que, pelo que entendi, publicaram só umas merreca há 10 anos e hoje nem existe mais.


Mau humorado?? O Crumb só foi ele mesmo, pô! Um cara mau resolvido, mau humorado, que vive e gosta do seus próprio universo, aparentemente autêntico, que simplesmente não entende porque todo mundo dá tanta bola pra ele. A Folha bem que podia ter escalado o Laerte ou o Angeli pra mediar a mesa, mas os cara num pensa porra! Não tenho mais nada a falar desse assunto. O mais bacana foi o Geilbert Shelton praticamente dormindo na cadeira do canto. Isso que é underground!!

Depois, fiquei duas horas na fila pra tentar pegar um autógrafo do Crumb. Ele só autografou para os cem primeiros, que estavam na fila antes da sua mesa ter começado. Nem tinha tanta gente assim na fila. Com 10 pessoas há minha frente, ele se levantou e foi embora. Por isso tenho que botar o dedo na ferida: o negócio foi mal organizado.

Ainda assim valeu muuuuito. Conheci o Gilbert Shelton. E virei fã do cara.


As 23h30 peguei o busão de volta pra São Paulo. Só no dia seguinte, vendo TV, me toquei que o gordão barbudo que foi e voltou da FLIP no mesmo busão que eu era o Ferrez . Realmente, a burguesia fede.

Pra quem gosta do Crumb, há chance dele aparecer na Bienal do Livro. Fica esperto gente.

Em breve publico aqui um filminho da minha ventura em Paraty. Té mais.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009



Em 2008, não sei precisar o mês, um grande amigo, companheiro de cursos e de algumas produções, contou-me sobre o projeto que sonhava para a conclusão de sua jornada universitária: um curta metragem oriundo de uma adaptação dos quadrinhos.

Até então sugeri-lhe HQs, emprestei obras e ofereci apoio. Testemunhei elucubrações, planejamentos frustrados, expressões de ansiedade, preocupação e medo.
Então, há pouco mais de um mês chegou um “AGORA VAI” na minha caixa de e-mails e meio que sem querer querendo protagonizei uma das melhores experiências da minha vida.

Estou falando de “Um Catálogo de Sonhos”, curta metragem do gênio neonato Micael Bretas, adaptada da HQ homônima de José Carlos Fernandes.
Promessa de grandes realizações, o obstinado Micael foi capaz não só de mobilizar família e amigos em prol de um objetivo comum, mas de capitalizar talentos num parto coletivo de uma obra cinematográfica.
Ao longo do processo neste um mês e meio, elementos impensáveis para uma modesta produção de guerrilha, mero TCC, mostraram-se interessantemente realizáveis.
Eu, paulista morando há 32 anos em São Paulo, até então nunca visitara o interior do monumento no marco zero da cidade. Durante as filmagens, além de testemunhar uma missa em latim com cantos gregorianos e etc., participei das gravações dentro da cripta da Catedral da Sé, na companhia dos senhores Regente Feijó e Cacique Tibiriça.

Dormi no alto da torre de uma igrejinha em Serra Negra, conheci as instalações desativadas de uma casa de detenção, tremi com o frio da madrugada nos telhados das industrias Selamil, corri e saltitei freneticamente nos estúdios de cromaqui da TV PUC, ...
Enfim, aprendi que mesmo longe de Hollywood, sem apoio do governo ou de empresas multimilionárias, mas com esforço, bons amigos e uma mãe dedicada é possível fazer cinema de qualidade e conteúdo.
É preciso nomear os méritos de equipe e elenco: as dinâmicas produtoras Marcela e Marilia; o irreverente assistente de produção/direção Thiaguinho; o homem do som e de boas histórias Cezar Babosa; a altiva assistente de arte e continuista Carla; a fotógrafa de stills e apoiadora Fernanda; e Débora, incondicionalmente e imprescindível mãe.

Tive a honra de contracenar com um elenco de notáveis: o renomado ator, diretor e roteirista Maurício Guilherme; o ator e locutor pioneiro das net-novelas Manoel Lima; o grande ator de comerciais e humorista André Jurado; o dedicado ator e promotor de eventos Fabiano Martins; e as gratas surpresas vindas direto da USP, David Mathieson (ator e sociólogo) e Bruno Costa (ator e geógrafo).


É claro que faltaram lencinhos umedecidos e massagistas tailandesas, mas tirando isso, foi uma produção excelente, acima do que qualquer um poderia imaginar. Orgulho-me imensamente de fazer parte dessa equipe e agradeço infinitamente a oportunidade.

Breve, Um Catálogo de Sonhos, num cinema perto de você!!!

domingo, 22 de março de 2009


Trevas.
Até onde podia perceber tudo o que o envolvia era a mais pura escuridão de adoecer almas.
Total inconsciência.
Um fecho de luz se projetou no extremo oposto e seu coração começou a tremer de expectativas.
A parede, outrora retrato da ignorância, agora recebia um banho de luzes e sombras donde se podiam decifrar formas e distinguir imagens.
Os primeiros estampidos de som o fizeram estremecer na cadeira e já podia compreender que uma experiência inédita se formulava.
Não havia outra saída a não ser se render.
E após os primeiros trailers o que experimentou foi um banho de sensações e emoções somente proporcionado pela magia do cinema.

Muitos já fizeram a conexão entre o cinema e a psicologia. Não há como deixar de comparar a própria sala de exibição com a mente humana. O escuro misterioso donde imagens e acontecimentos vêm à tona. Onde o inconsciente é projetado na tela da consciência revelando processos e desencadeando catarses.
Psicólogo por formação, educador por natureza, ator por teimosia, escritor por necessidade e cineasta por paixão, é essa fronteira que venho desbravar.
A conexão cinema-psicologia e tudo que puder extrair dessa revelação.

Lanço-me no universo da cinematografia e espero trazer algo que seja novo também para o público em geral ou àqueles que se puderem beneficiar das armadilhas da sincronicidade.
Ou porque será que você está lendo isto afinal???
Exorcisando The Spirit



O Spirit que conheci é próprio dos anos 40. Não havia o politicamente correto e as histórias eram permeadas de inocência.

Spirit enfrentava sim seus inimigos só com os punhos e suas roupas acabavam sempre rasgadas, mas era também dotado de inteligência e jamais despejava violência gratuitamente.

Admiro Frank Miller. Venero seu Cavaleiro das Trevas, mas devo admitir que concordo com Allan Moore quando diz que só HQs ruins dão bons filmes.

Na recente versão de The Spirit, não consigo identificar onde Miller errou mais. O roteiro é fraquíssimo, subestimando a inteligència do espectador. As atitudes do personagem principal beiram o ridículo com violência em exagero, seus galanteios esnobes e a desnecessária narração.
O diretor parece fazer uma micelânia de Sin City com o Chaves do SBT.
O filme em si se arrasta num cansativo tédio, melhorando pouco no final. O que mais vale é o desfile de beldades em pouca roupa, e a participação consistente de Dan Lauria (o pai do Kevin Arnold da série “Anos Incríveis”) como chefe de polícia.
Muito do que Eisner proporcionou em sua colaboração para o mundo do cinema (todo bom cineasta já leu “Narrativas Gráficas” ou “Quadrinhos e Arte Sequencial”) fica perdido nessa pseudo homenagem, restando apenas alguns enquadramentos que lembram a visionária perspectiva do mestre.

De repente seja mais interessante a adaptação feita para TV em 1987, dirigida por Michael Schultz e estrelada por Sam J. Jones. Esta sim, parece-me preservar mais o “espírito” do personagem, entende.

Para os curiosos indico também uma adaptação brazuca, abençoada pelo próprio Will Eisner, de um dos contos de The Spirit, 'The Story of Gerhard Shnobble'. O curta metragem “Geraldo Voador” dirigido por Bruno Vianna. Vale dar uma espiada.

domingo, 3 de agosto de 2008

A Bossa Nova fez aniversário. Para comemorar, o jornal O Estado de São Paulo lançou um concurso de contos. Dentre as regras, além do número redusido de palavras, era preciso alocar em alguma parte do texto a frase: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”. Escrevi e me inscrevi, mas não fui selecionado.

De que adianta escrever se teu material nunca for puclicado?!?

Por isso aproveito a democracia eletrônica e publico aqui, em primeira mão, meu conto:


"Uma canção para o fim do mundo"


Lado A: Uma nova batida

Foi um milagre da ciência!

Olavo fora um boêmio. Trabalhava dignamente na transportadora que administrava. Nunca deixou faltar nada à esposa nem aos filhos. Mas nas noites, se entregava ao samba. Fumava, bebia, dançava, cantava e se encantava com as mulatas ao luar.

Não foi a farra que consumiu prematuramente seu coração. Algo acelerou o processo. Soubera depois que se tratava duma má formação, um engano do metabolismo. Um nome estranho que não ousava repetir.

De fato, eram duras as previsões de seu cardiologista. Não mais de seis meses. Não havia outra cura que não a drástica substituição.

Foram infernais meses na fila de espera por um doador compatível. Vendeu caminhões para financiar seu tratamento. Largou definitivamente a bebida, o cigarro, as mulatas, a boemia. Quase perdeu a alegria. Mas nessas horas de dor, algo novo também ocorreu. Pode rever sua família com outros olhos. A intensa dedicação da esposa. A perspectiva de perder o florescer de seus rebentos. Tudo isso o fez prometer a Deus que valorizaria cada segundo de sua nova vida se tivesse uma segunda chance. Seria definitivamente um novo homem.

Do seu doador soube apenas que fora um desiludido poeta que esmigalhou os próprios miolos com um tiro numa noite de angústia. Mas preservara-lhe o coração. Depois de muita tristeza e espera, Olavo sabia que sua vida recomeçava. Dentro de seu peito havia uma nova batida.

Lado B: A voz sussurrante

Seis anos após a cirurgia que lhe salvou a vida, Olavo se encontra num luxuoso edifício, comandando seu império de transportes. Um pai afetuoso e marido exemplar. Um ser importante no circulo social e político.

Só, em sua sala após uma reunião, ouve um sussurro: “Melancolia”. Procura em vão a fonte do som. A voz se repete: “Tristeza”. Em seguida, sente seu corpo chacoalhar contra sua vontade. O teto racha, lustres e objetos vêm ao chão.

Minutos depois é noticiado o primeiro grande terremoto da história de nosso país, deixando milhares de mortos e desabrigados. Desesperado, sem sinal no celular, já em seu carro, Olavo ruma em direção ao lar, à família. No caminho vê bolas de fogo precipitarem do céu escuro. No rádio, os mais incríveis fenômenos e calamidades são anunciados à exaustão. Nas ruas, fiéis de toda ordem anunciando o apocalipse. Ao passar frente a um cemitério, o inconcebível: cadáveres deixando seus túmulos e afligindo os cidadãos.

Chegando ao lugar de sua casa, só escombros, fogo, desolação.

Andando perdido frente ao inacreditável inferno que testemunhava, novamente um sussurro: “Não há paz”.

Assustado, depara-se com uma esquelética criatura apodrecida. Do crânio, faltava-lhe o tampo. Violentamente o ser lhe profana o peito puxando para fora o coração. Pasmo, em seus últimos instantes de vida, Olavo vê o monstro devorar-lhe o pulsante órgão, cochichando com lábios carcomidos: “Não quero mais esse negócio de você longe de mim”.

junho/julho de 2008

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Atenção,

Postei meus vídeos no Fiz TV, um site da TVA onde os vídeos mais votados são exibidos no canal Fiz TV da TVA.

acesse:

http://fiztv.uol.com.br/f/Usuario/index/8670

Assistam, votem, comentem, divulguem.

Conto com a colaboração de todos

Beijos Mil!!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Eram os Deuses astronautas?

Passei este feriado nas alturas.
Na quinta assisti com meu grande amigo Luciano ao documentário de Erich von Däniken, “Eram os Deuses astronautas?”.
Já tinha lido o livro há alguns anos. Teoria interessante. O documentário é antigo e já está desatualizado e datado. Mas foi interessante rever a teoria. Sincronicamente, foi um convite do meu amigo que colaborou para o contexto do meu fim de semana.

Na sexta, usufrui dos ingressos que ganhei do Estadão para a exposição Star Wars.
Gostei da exposição. Figurinos, objetos de cena, gráficos, artes e storeboards. Recomendo para os fãs inveterados. Mas francamente, foi pouco para o preço do ingresso. Ainda bem que o meu eu ganhei.

De lá, esticamos para um cineminha. Queria ver Speed Racer. Meu irmão viu e falou muuuito bem. Mas pelo horário e pela fila, escolhemos Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.
Aí começam as críticas. Primeiro pelo nome. Parece filme da Xuxa. P#T4 nome comprido!
O filme é um típico Indiana Jones. Entretenimento do começo ao fim fundamentado nalguma lenda antiga e distorcida pelos interesses dos roteiristas e dos estúdios. Mas esse foi demais. A começar com a KGB em plena área 51 durante a época da Guerra Fria. Haja imaginação! Salvo a referência ao primeiro filme (a arca perdida entre caixotes).

Daí nosso herói sobrevive a uma bomba atômica.
Aí vêm as melhores cenas, na minha opinião, realmente remetendo ao espírito dos filmes anteriores: a briga no bar e a perseguição de moto, quando Indiana entra por um lado do carro dos bandidos e sai pelo outro lado voltando para a garupa da moto. Uma cena digna dos dubles, como aquela do primeiro filme em que ele passa por debaixo de um caminhão.
Daí por diante a gente vai relevando, mas algumas coisas não dá pra deixar passar: as formigas carnívoras levando um russo para armazenar durante o inverno, o jovem Shia LeBeouf saltitando entre macacos feito um Tarzan de gel e a viagem por um incrível rio Amazonas que desemboca nas Cataratas do Iguaçu. Tremendo nonsense.

A história de fundo só vem corroborar o contexto sincrônico de meu fim de semana, entre deuses-astronautas, galáxias distantes e viagens interespaciais.
Nada de novo para quem já buscou um pouco por aí. Incluindo o fetiche de Steven Spielberg pelos ETs. O melhor de todos continua sendo o primeiro (Contatos Imediatos). Mas o excesso cansa né!
Respeito muito todos os trabalhos do cara, mas aprendi a desconfiar do Steven depois de A. I. – Inteligência Artificial. Os robôs do final seriam terrestres ou extraterrestres??? Essa é uma discussão para outros carnavais.

Para os fãs de ETs, Indiana Jones e para os que buscam um cinema de puro entretenimento, recomendo.

Agradeço ao Estado de São Paulo pelos ingressos, à Lu Pimenta pelas fotos e logistica e ao Otto Guenther pelo paitrocínio.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Apenas uma hora!

Escreva sobre a primeira coisa que te vier à cabeça.
Se os temas forem recorrentes, repetitivos, só comprovaremos o objeto das tuas obsessões.
Uma hora por dia. Se você conseguir sustentar a escrita durante uma hora todos os dias durante uma semana, conseguirá persistir por mais uma. E mais uma. Dá insistência perpetrar-se-á o hábito.
Torne essa hora santa e sagrada. Mais importante do que as orações matinais. Mais importante do que escovar os dentes após as refeições. Mais importante do que as sessões de desenhos dominicais.
Este hábito pode tornar-se o teu sustento e a fonte de criatividade que contribuirá para a insurreição de uma nova era.
É curioso o quanto subestimamos nossos talentos. Estas palavras bem colocadas, elevadas à potência das inúmeras pessoas que poderão predizê-las, significarão mudanças para toda humanidade. Mas, principalmente, mudanças na tua personalidade, na tua forma de ser, na tua vida.
Não se menospreze. Tacanho esse costume de nosso povo de minar a auto-estima comparando-se a alheios. De se privar das delícias de uma vida espontânea quando não se alcança as metas de sonhos insossos. De negar-se aventuras em troca da caça de sensações planejadas, idealizadas.
Portanto, atendendo aos apelos de minha alma, escrevo e revelo o mistério dos meus universos mentais.
E preciso começar comentando exatamente essa sensação de que falei a pouco: o menosprezo de nossos talentos.
Como posso negar ao mundo o apocalipse das idéias que me ocorrem, temendo um fracasso estranho prenunciado por uma bola de cristal rachada. Imagens opacas de meu medo infundado.
“Não vai dar certo. Como você vai publicar? Quem vai ler? O que vai te sustentar”
Nos meus ideais insanos já estou lá no programa do Jô, divulgando livros, filmes e outros trabalhos. É um sonho que sonho ser realizado. Esses mesmos ideais me cobram das possibilidades: “Como é que eu vou fazer tudo isso?!? Como é que vai ser o final?”
Como posso saber o final do livro que estou escrevendo se não começá-lo algum dia?
É uma ansiedade que quer ter-me ao alto do pódio antes mesmo de fazer a corrida.
E com sabedoria de alma que me aconselho à calma. Fazer de tudo, mas com passos de bebê.
O que posso fazer hoje. E só hoje.
Só hoje estou escrevendo, pelo intervalo de uma hora. Está hora é sagrada e nela me vejo ao espelho.
Estou diferente e mais maduro porque cumpri uma meta. Com passos de bebê durante uma hora revelei um mistério. Já estou diferente de quando comecei.
Para quem vir a ler este encanto, podem se passar poucos segundos. Quem sabe mais de um minuto. Haverão aqueles que aqui se reterão por mais de hora. Mas tudo que escrevi hoje iniciou-se do nada. E escrevi durante uma hora.

sábado, 8 de março de 2008

Crianças-Fantasma...

O fenômeno das crianças-fantasma hora e meia é reutilizado pelo cinema. É bem explorado nos orientais O Grito e Água Negra, a ponto de serem refilmados pelos americanos. No espanhol A Espinha do Diabo, filme do sombrio Guilhermo del Toro, estão lá novamente. Sem falar de Os Outros, e no hors concours O Sexto Sentido. Se falarmos de crianças assustadoras, não necessariamente fantasmas, aí a lista aumenta e se destaca a mais sinistra de todas, em A Profecia, mas já é matéria para outro papo.

Em O Orfanato, uma produção de Guilhermo del Toro, dirijida por Juan Antonio Bayona, retornamos ao tema.
Guilhermo parece gostar de órfãos. Estão no enredo de Espinha do Diabo e, até seu premiado Labirinto do Fauno, não deixa de ser protagonizado por uma órfã. Mesmo Hellboy, é um “órfão do capeta” adotado pelo Professor Trevor Bruttenholm, do Bureau de Pesquisa e Defesa do Paranormal.
Fazendo jus ao nome, estamos rodeados de órfãos em vários sentidos em O Orfanato. Mas os mais assustadores são os orfãos-fantasmas, em especial o menino com um saco de pano na cabeça (realmente dá arrepios).

Belén Rueda faz Laura, a esposa do casal que adquire esta casa, que foi o orfanato onde ela passou a infância, para agora transforma-la num lar de crianças deficientes. Acomapanham-nos o filho do casal, Simon (Roger Príncep) que tem mania de amigos invisíveis. Em algum momento os “amigos invisíveis” de Simon aumentam em número e ganham características mais específicas. Esses amigos contam uma verdade triste para Simon e também lhe ensinam o jogo da caça ao tesouro, onde algo que lhe é muito querido é escondido.

Como em toda história de criança, os pais não dão muita bola para as brincadeiras de Simon, até que ele some inexplicavelmente.
Não posso contar mais sem estragar as surpresas do filme.

É um suspense psicológico um tanto fechado na interpretação de Belén Rueda. Tem seus tons obscuros e alguns pontos fortes, que assustam um pouco, mas realmente nada de original. Como em todo filme ou história de fantasmas, os espíritos só permanecem entre os vivos quando tem assuntos inacabados por aqui. Não adianta fugir de um fantasma, nem se trancar num quarto em baixo da cama. São fantasmas, ora essas! Eles acham você. É melhor perguntar logo o que eles querem ao invés de passar metade do filme se assustando e fugindo deles.

O desfecho não será novidade para quem já viu Água Negra, refilmado sob a batuta do nosso Walter Salles.
Eu diria que a melhor seqüência está na revelação mediúnica, que conta com as participações de Geraldine Chaplin, como a médium, e do querido Sr. Barriga Edgar Vivar, como investigador paranormal.

Resumindo tudo, considero um filme fraco, mas que não deixa de ser interessante para quem gosta de suspenses e contos de fantasmas.

Precisamos de filmes mais originais sobre o tema. O que parece difícil depois de O Sexto Sentido. Eu e minha turma tentamos fazer nossa parte no curta Fantasmas Existem. Dêem uma olhada.

Agora, falando em Guilermo del Toro, não aguento mais esperar por Hellboy II. Sou fã dos personagens em quadrinhos e gostei muito da primeira adaptação. A continuação promete.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Viva Juno!

Um bom filme. Despretensioso, simples, com cara de independente. No final, menos é mais.
Confesso que o estilo do filme me lembrou muito Napoleão Dinamite, uma boa produção da MTV. Personagens não-convencionais, orgânicos, nada de Barbies e Kens.
A sinopse é simples. Uma jovem adolescente engravida do melhor amigo e resolve dar seu filho para adoção.
Mas a forma como isso é contado e o modo como a personagem principal nos é apresentada é muito divertida e emocionante.
Juno, muito bem interpretada por Ellen Page, é uma jovem diferente. Como eu li em algum lugar, é a amiga que todo garoto gostaria de ter.
Mas ela representa algo além: um novo tipo de mulher. Alias, as mulheres do filme são todas marcantes, fortes e independentes em vários sentidos. Enquanto os homens são meninos imaturos, a exceção talvez do pai de Juno (J. K. Simmons).
Juno é fruto de uma geração bombardeada pela mídia mas que ainda assim sabe o que quer. Vemos isso pelo seu jeito espontâneo, sua personalidade forte, decidida, desembaraçada. E pelo gosto musical.
O filme tem uma excelente trilha sonora.

Talvez o filme mostre a gravidez na adolescência como algo muito fácil. Mas por que tornar isso um drama?

Realmente, a exótica Diablo Cody, roteirista ganhadora do Oscar, fez por merecer. Não me parece o roteiro mais original do ano, mas é muito bom. Tomara que o prêmio não eleve tanto nossas expectativas para que os próximos trabalhos dela não nos decepcionem.

Recomendo Juno para jovens casais. E para todos que gostem de coisas diferentes.
O filme é muito bom.