domingo, 14 de outubro de 2012

Experimenta !


Saudações leitor!

Proponho hoje uma experiência. Mas para isso é preciso admitir a possibilidade de abalar todas tuas crenças, todas as bases sobre as quais erigiste tua realidade, tuas perspectivas, tua existência.

Dê-se 15 minutos para assistir a este vídeo de Gregg Braden:


A nossa mente não é nossa. É do mundo.

São idéias e crenças vibrando como ondas soltas não se sabe provindas de onde, mas que percorrem a atmosfera sem personalidade nem presença.
Entenda apenas que não nasceram em ti. Isso que comanda tua forma de ver, perceber e entender, não é teu.

Ao sintonizar as idéias e pensamentos e tomá-los para si, você os personifica e alimenta.
Nossos sentimentos é que lhes dão consistência.

Quando vazio de espírito, há carência. Acolhemos as idéias para nos preencher.

Alimento os pensamentos do mundo, que adoto como meus, como quem adota um filho perverso e lhe faz todas as vontades esperando que ele entenda como amor o que são só promessas e fantasias.

Não é teu. Não se engane.
Não se responsabilize pelo que não é teu.
Mas assuma a sua escolha de alimentar e se apropriar, pois isso tem conseqüências às quais arcar e isso a vida vai cobrar.

Você só responde por aquilo que alimenta, aquilo em que acredita e que sustenta. Aquilo em que se apóia na falsa presença de uma consistência que foi VOCÊ quem deu.

A consistência, a energia, a relevância, são nossos. Nenhuma idéia toma força sozinha.

Se uma idéia, uma crença, te faz mal, acorde! A força que as nutre é tua. Recuse-se a alimentá-las e elas definharão por inanição.

As idéias vêm e vão. Alimentar o que te impinge dor, o que te fere e te ofende é um erro. Um mal hábito aprendido pela convivência com os que nos rodeiam e crêm que educam incutindo medo e desprezo pelo que vem da essência do espírito.

O que cremos nosso se materializa. A gente alimenta, sente, firma, dá consistência. Assim formamos nossa realidade.

Mas a realidade não é a verdade.
A verdade, ainda não a conheço, mas sei que seu caminho é o da essência, não da aparência.

A realidade é um sonho que ganhou forma com nossa confiança, nossa crença.

A verdade está no espírito, como semente, latente, aguardando as condições adequadas para germinar, crescer, florescer e se manifestar.
Sua fragrância exala coerência, equilíbrio, presença, permanência.

Num universo de mutações, onde nada permanece, a verdade do espírito é a infinita permanência, a conexão com a força ancestral que habita nossa essência.

É preciso então, no seu tempo, trazer essa verdade para o plano da consciência. Implica crer no que não vemos, no que abala nossas crenças.

Num mundo de “ver para crer” a verdade do espírito parece a divina incoerência. O milagre inexplicável que, não sabemos como, mas quando permitimos, como uma criança marota, se apresenta.

O caminho da “contramão” aparentemente solitário. Mas não se engane pois, ao ouvir teu espírito, tua essência, o universo se manifesta por sinais e te preenche com imensa certeza que vibra no corpo: convicção, coerência.

Os medos, as ilusões e as expectativas, a espera de uma manifestação física de uma colheita que sequer foi plantada é que frustram nossa disposição para se entregar a essa divina experiência.

Parece difícil pois a única certeza é a da incerteza do que nosso espírito pode nos mostrar.

Se faz mal, se causa dor, acorda. Não é teu.
Mas acordar para isso é um exercício, uma mudança de hábito. Exige humildade e paciência.

Como disse minha mãe: “se você ama, vale a pena”.

Ore comigo agora:

“Ah verdade do meu espírito, se manifeste em mim!
Floresce do meu peito e me toma inteiro porque sou teu.
Mostra-me a verdade de quem sou EU.
Liberta-me das ilusões da mente e das crenças do mundo.
Descobre em mim a pureza e a esperteza que o medo perverteu.
Preencha-me!


Deixe se manifestar do teu espírito a tua oração que irá te ajudar a se firmar nessa conexão.

Experimenta!

- Referências complementares:

“Kiriku e a Feiticeira” (França, 1998)



“Os quatro compromissos” (Don Miguel Ruiz, editora Best Seller, 2010)

"Os buracos de minhoca e a auto-estima" (Renato Guenther, 2012)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Óia o trem !



Ontem, quinta-feira 11 de outubro de 2012, por volta das 18 horas, peguei o trem da linha Esmeralda, sentido Osasco, a caminho do Instituto Stanislavsky a fim de ministrar minha aula de Psicologia Analítica aplicada a atuação metódica.

Contente por achar um lugar para sentar, ocupei-me de meu passatempo costumeiro em trens e ônibus: observar e devanear.

Notei uma moça, morena de cabelos lisos tingidos de um tom mais claro, rosto arredondado com bochechas protuberantes marcadas por cicatrizes de espinhas e cravos, feições de quem descende do nordeste, aparente fruto da migração às áreas periféricas desta gigantesca cidade. Até onde percebi, vestia roupas sóbrias de tons escuros, uma simples blusa preta, um jeans colado. Talvez estivesse a caminho da faculdade para um dia de prova depois do trabalho. Um prosaico dia de quem se aperfeiçoa no ofício de operário, de pequena engrenagem da máquina social onde cada um tem um papel na manutenção e continuidade do sistema de vida e de crenças desta sociedade dita civilizada.

Notei quando ela atendeu ao chamado de seu telefone celular. Pareceu rir como quem se percebe vítima de uma brincadeira macabra, “O que? Ah vai, pára!”. Em seguida seu sorriso ingênuo ganhou ares trêmulos, arqueando-se com as pontas para baixo. Suas mãos reproduziram os movimentos de um doente acometido do mal de Parkinson. Seus olhos inundaram-se com o brilho das águas salgadas de um mar de azares, “Pára, não pode ser! Ele não morreu, eu não acredito, eu não acredito. Não brinca comigo. Não! Não!”

A este ponto suas emoções se extravasaram em prantos rasgados, gritos de inconformismo e dor, mobilizando a atenção de todos que ocupavam o mesmo vagão. O silencio geral tomou o ar dos que se entretinham com as amenidades de mais um fim de tarde. Seus gritos e seu choro atravessavam a atmosfera como dardos letais embebidos em veneno, aplacando-nos o peito com palpitações de dor. Soluçava e berrava deixando caído e esquecido o aparelho celular que iniciou todo e estupor, “Não pode ser, não acredito que ele morreu! Mataram o meu namorado!”

O sujeito moreno de terno que dividia o banco, sentado a seu lado, totalmente sem graça, não sabia se a acudia ou se levantava para dar-lhe mais espaço. Outro, no banco da frente, com camisa do Corinthians e jaqueta amarela, tirou seus fones do ouvido transparecendo-se penalizado. Todos pareciam sem ação, porém, de algum modo, sensibilizados.

Uma vida chegava ao fim lembrando-nos todos do princípio da impermanência, de atos e fatos. Senti vontade de levantar-me e abraçá-la a fim de amenizar o choque daquele momento trágico. Queria dizer ao rapaz de terno, de movimentos patéticos que se anulava ao seu lado, para ampará-la, estendendo-lhe os braços. Mas ninguém naquele trem reagia. Apenas observavam, de algum modo tocados.

Em mim surgia a paz serena de um yogue. Algo me dizia “fique atento, observa”. Ao mesmo tempo um misto de pensamentos me inundava. A lembrança da recente briga com minha namorada. E se fosse eu o morto, será que ela se desesperava? Minha tristeza e frustração diante da possibilidade de nosso relacionamento chegar ao fim, recentemente resfriado pelas armadilhas da comunicação falha, das neuroses pessoais e da distância geográfica. O medo da morte, o medo da mudança, o medo do fim. E eu havia dito para ela que, naquele dia em que deixamos de nos falar, seu silencio foi como a morte e minha dor foi como o luto por algo que tanto queria mas que se esvaia diante da impotência nas adversidades. Mas não era eu o morto. Nem minha namorada. E talvez nossa relação reagisse, saísse mais forte e sadia da UTI em que estava internada.

Finalmente alguém quebrou a onda que paralisava o tempo no trem da menina desesperada. Um senhor veio lá do fim do vagão, estendo-lhe a mão e se oferecendo para acompanhá-la até a próxima parada. “Liga para sua família moça, vamos descer para você se acalmar”.

Seu gesto despertou a todos. O corintiano ofereceu seu aparelho celular para que a moça tentasse falar com algum conhecido que a ajudasse. Outra moça do outro lado do corredor, também estendeu seu aparelho oferecendo os créditos pré-pagos para aliviar um pouco a dor. Do banco de trás uma senhora loura e baixa acariciou-lhe os cabelos e também se prontificou a acompanhá-la. Os gritos, o choro e os berros ainda reverberavam fazendo os vidros tremerem. Juntos, o senhor simples de feições rústicas com sorriso solidário, e a senhora loira e baixa, apoiaram a moça amaldiçoada. Desceram com ela na estação seguinte onde de imediato, até onde pude ver, um funcionário da companhia de trens acolheu o grupo, levando a menina triste para uma das cadeiras vazias da parada.

Nos segundos seguintes o vagão lotou e o silencio funesto foi enterrado e esquecido, substituído por sons de conversas rasas e algumas estéreis risadas. Duas moças paradas a minha frente comentavam sobre os ingredientes que se fazem necessários para cozer uma paeja à moda espanhola.   

As engrenagens da cidade que nunca pára esmagavam a dor daquela triste e repentinamente viúva enamorada. Todos voltando às trivialidades de uma vida sem alma, como se nada tivesse acontecido.


O trem da vida anda. Mas e a gente? Quando é que acorda?



segunda-feira, 2 de julho de 2012




É possível ser senhor do próprio destino?

O ser humano tem por habito se gabar por sua capacidade de raciocinar, sobrepondo-se aos outros seres e crendo-se espécie dominante deste planeta.
Criamos ciências, economias, indústrias, religiões.
Mas somos realmente donos de nossas vidas?

Costumo dizer que somos frutos de pelo menos quatro forças principais: genética, cultura, experiências pessoais e acaso.
A combinação destas forças tende a moldar nossa visão de mundo e nossa maneira de ser.

Em nossa arrogância, nos cremos superiores, diferenciados dos outros seres, como se fossemos senhores de nosso destino.
Mas pense bem: quantas vezes você não se frustrou por um desejo não realizado?

Quantas vezes nos esforçamos e fazemos todo o visivelmente possível para alcançar um resultado positivo num aspecto qualquer de nossas vidas e o que encontramos é o amargo do fracasso?

Nossa ânsia de controle e poder sobre a vida é confrontada por detalhes como o tempo, o espaço, a tecnologia vigente, o senso comum.
Não controlamos o transito na hora do rush, não controlamos o clima na hora da chuva, não controlamos o medo na hora do assalto, não controlamos a impotência diante da morte.

Somos formigas na teia do infinito, seguindo trilhas em fila, de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Procurando viver ou sobreviver, coletando, plantando, produzindo, inventando e iludindo. Sonhamos com os bolsos cheios da grana, a mulher amada, a família perfeita. Filhos que darão continuidade à corrida pela produtividade. De casa para o trabalho e do trabalho para casa, seguindo trilhas em fila, como formigas na teia do infinito.


Comparado à idade do planeta, somos apenas a mais recente poeira, que em breve se esvairá com o vento das eras.
Poucos despertam sua consciência para algo mais substancial.

Percebo-nos muito mais marcados por determinismos do que poderíamos querer.

Recentemente, brindei-me com o seriado Força da Vida, veiculado algumas noites na TV Brasil. Trata-se duma produção da NHK (TV pública japonesa) que percorreu vários cantos do mundo registrando imagens da natureza com enredos justapostos pela teoria evolucionista.

O que descobri é que, com nossas pomposas articulações, criando arte, ciência ou cultura, não fazemos mais que a luta pela perpetuação da espécie, nada diferente de todas as outras espécies que co-habitam este mundo. Somos, talvez, mais engenhosos.

Impelidos pelo determinismo biológico disputamos recursos e melhores condições de sobrevivência com nossos adversários das diversas classes de seres, principalmente com os da nossa própria. Daí as guerras.

A maneira específica como criamos estratégias para existir, em grupos, transmitida pelas gerações, forma o que denominamos cultura.
Nascer brasileiro, com nossa história de país colonizado, já carentes de auto-estima e pedantes com nossa própria origem, é outro determinismo.

Somemos a maneira “subjetiva” de encarar as situações, nossas experiências pessoais, e o acaso.

É muita ilusão crer que podemos controlar todas essas influências, sobrepujá-las, com uma mente originalmente influenciada.

Aí chegamos ao ponto. Dificilmente somos puros em nossas condutas e escolhas. Agimos guiados por uma mente fruto das forças do mundo. Uma mente que tende, por impulso biológico de sobrevivência, a lutar para perpetuar sua programação, como o computador HAL 9000 do filme Uma odisséia no espaço.

Para evoluir com dignidade, para a posse real de alguma interferência genuína em nosso destino, é preciso confrontar essa programação mental, a fim de permitir emanações espontâneas do fundo de nosso ser, daquele recôndito que Jung chamou de Self.

... a base da imaginação é não ter imaginação, é conseguir romper com tudo que é imaginário. A partir daí, pode-se fazer tudo o que se quiser.
Se não rompermos com o imaginário, ficaremos sempre na situação de um parasita ...   
(Jodorowsky, Alejandro – Psicomagia – Pág. 263-264)

A maneira como penso, imagino ou percebo minhas experiências agora, não e neutra, mas impregnada de uma história micro e macro cultural, influenciada pela biologia. Qualquer coisa que eu imaginar com esta mente vai reproduzir aspectos dessa história, como um parasita. Nós não somos genuínos. Já nascemos prisioneiros.

Nem teus desejos são verdadeiramente teus. Eis a chave da propaganda.

Para libertar-se é preciso transcender a mente, superar os limites das crenças ou programações pessoais, sobrepujar as influências familiares e culturais.

Como disse Pessoa:


O essencial é saber ver, 
mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, 
isso exige um estudo profundo, 
aprendizagem de desaprender. 

Eu prefiro despir-me do que aprendi, 
eu procuro esquecer-me do modo de lembrar 
que me ensinaram e raspar a tinta
 com que me pintaram os sentidos,

desembrulhar-me
e ser EU.



E só lembrando, a classe dominante em nosso planeta é a dos artrópodes... 


Links relacionados:

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Os Buracos de Minhoca e a Auto-Estima


Há muito que a ficção científica brinca com a possibilidade de viagens interestelares e intertemporais. Romances, contos e filmes vêm explorando a idéia de viajarmos para além dos limites da atmosfera terrestre quase com tanta intensidade quanto as viagens no tempo, para o passado, para o futuro ou para realidades alternativas.
No plano da nossa atual realidade, viagens no tempo e no espaço, ou para além do tempo e do espaço, são tema de vasta interpretação com diversas perspectivas. Pessoalmente, sei pouco a respeito, mas até onde minha ignorância permite, entendo que nossa tecnologia não suportaria hoje transcender muito mais que os limites de nossa Lua. Quanto às viagens no tempo, até teoricamente há divergências sem fim.
Solução viável para nos realocarmos, tanto em diferentes distritos do espaço quanto em planos alternativos do tempo, seriam os buracos de minhoca.
Teoricamente em algum momento nos será possível abrir portais para infinitos planos do espaço-tempo. Se isso é verdade, pode estar acontecendo em alguns dos infinitos planos exatamente agora. Mas precisaríamos de uma máquina para isso. Ou não?
Vem martelando-me a idéia, talvez não tão original, de que as viagens no espaço-tempo seriam possíveis de uma forma muito mais fácil, sem a necessidade de parafernálias tecnológicas, mas com a simples indução de um estado psicoemocional.
Com meus pacientes uso sempre a lembrança dos bolinhos de chuva que minha avó fazia em minha infância como exemplo de como podemos alterar a bioquímica de nosso cérebro. Basta lembrar dos deliciosos quitutes, preparados com esmero, banana e canela, que minha boca se enche de saliva. Até o aroma me vem às narinas. Meu corpo todo recebe o sinal de que vem coisa boa por aí. E tudo não passa de um estado psicoemocional induzido por uma lembrança.
De forma similar, sintomas materializam-se no corpo de pessoas em estado de sofrimento emocional, mesmo de forma inconsciente, sem aparente origem num desequilíbrio biológico. Doenças “criadas” pela mente; psicossomáticas.
Hoje sabemos também que estados induzidos por técnicas diversas, como a meditação por exemplo, criam sensações de bem estar e até melhoram a saúde física, sem necessidade de se apelar a drogas de qualquer tipo.
Através de prática na arte de disciplinar a mente podemos de fato criar um estado emocional diferenciado, alterar a maneira como percebemos os estímulos sensoriais e definir como podemos, ou queremos, ser afetados pela realidade.
Dalai Lama disse certa vez que existem cerca de sete bilhões de religiões no mundo, referindo-se à maneira como cada ser humano entende o processo de religar-se às forças do cosmos. Ora, cada ser tem uma maneira de ver o mundo que lhe é própria, herdada culturalmente e acrescida de suas percepções ao longo de suas experiências pessoais ou até pelo acaso. Cada ser humano vive em sua própria realidade.
Quando amadurecemos no entendimento de como percebemos a realidade, mudamos o modo como ela nos afeta. Mudamos a forma de ver o mundo. E, sem sair do lugar ou exercer qualquer ação externa, mudamos o próprio mundo. Mudamos a realidade.
Num mesmo mundo habitam diversos seres e, num mesmo ser habitam diversos mundos.
Assim, porque não seria possível transcender as aparentes barreiras físicas? Através da imaginação podemos habitar mundos longínquos, diminutos ou gigantescos, de inúmeras formas, consistências e aparências, em qualquer momento da linha do tempo, em qualquer localidade do espaço, entre os diversos planos prováveis ou improváveis, sem que para isso seja necessário mover um músculo.
Com o estímulo certo, provocamos toda uma alteração psicoemocional referente ao local ou situação do espaço-tempo que pretendemos alcançar. E com o esforço adequado da vontade e do poder de crença poderemos, quem sabe, de fato materializar esse novo plano de realidade.
Os buracos de minhoca seriam reais, criados com o poder de nossa mente. E os mapas estelares não seriam mais que representações das nossas redes neuronais.
A aparente brincadeira de crianças em As crônicas de Nárnia contrasta décadas de aventura num reino distante com apenas alguns momentos de confusão dentro de um antigo armário.
O filme Contato fala da polemica da possibilidade de contatos extraterrestre, não com espaçonaves, mas com uma gigante máquina que, aparentemente só gastou dinheiro público. Não quero estragar o final para aqueles que ainda não viram o filme, mas 18 minutos de estática numa fita de VHS são bastante reveladores. Seria só um estado alterado de consciência?
No filme Em algum lugar do passado a personagem do saudoso Christopher Reeve faz uma viagem no tempo, não com alguma máquina estranha nem com um delorean, mas através de hipnose auto-induzida.

Warren Ellis brinca com essas possibilidades na HQ Azul Profundo. Escreve baseado em suas experiências com drogas e nos registros com uma droga em especial, a DMT, cujos relatos de experimentação sugerem uma espécie de viagem no espaço-tempo comum a maioria dos usuários.
Assim como uma droga pode estimular uma área específica da mente, revelando experiências específicas, poderíamos chegar a estes estados com estímulos naturais. Quem sabe C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, Julio Verne e outros não foram viajantes do espaço-tempo que deixaram em suas obras pistas para novos aventureiros?
Talvez uma viagem espaço-temporal não nos seja possível agora, mas a mudança da forma como escolhemos ser afetados pela “realidade” está muito mais próxima do que imaginamos.
Fico comparando a dificuldade que encontro para deixar velhos e improdutivos hábitos, melhorar meu aproveitamento nas experiências do dia-a-dia, vencer os empecilhos pessoais que considero como entraves para uma vida plena.
Vejo as dificuldades que meus pacientes relatam em suas aventuras cotidianas, os sofrimentos às vezes inconscientes e inevitáveis.
Com meus pacientes esquizofrênicos aprendi o quanto a mente pode ser inquisidora, capaz de limitar nossas possibilidades de usufruir a vida.
Percebo que criamos em nossa mente uma tendência para valorizar o negativo, em suas mais diversas formas e expressões. Lembro de minha infância e sou capaz de narrar uns cem números de experiências positivas, mas é a meia dúzia de situações negativas que fico repetindo e rememorando à exaustão.
Uma tendência sócio-cultural, aprendida, que programa nosso cérebro para nos auto-caluniar.
Essa tendência influi na criação do mundo que cremos viver.
Para criarmos um mundo melhor é preciso exercitar e desenvolver a habilidade de reconhecer o que temos e vivemos de positivo, até naquilo que parecia ser negativo.
Para expressar melhor o que quero dizer prefiro usar as palavras de José Luiz Tejon:




(Não consegui adicionar a continuidade da entrevista, mas vejam aqui.)

Aprendemos a nos ver na infância, a princípio, projetando a partir de nós mesmos a imagem que nossos adultos responsáveis e parceiros de convivência lançaram sobre nós. Experiências de auto-imagem positiva na infância tendem a moldar auto-estima sadia na vida adulta. Mas nem todos têm referência de adultos responsáveis, sábios ou ternos.
Aí resta se auto-referenciar, a partir da busca pessoal de uma nova auto-imagem, positiva.
Mudo a maneira de me ver ao reconhecer o que tenho de bom. Mudo minhas sensações e impressões para comigo mesmo. Mudo a maneira que escolho afetar-me pela “realidade”. Mudo minha própria realidade. E de repente sou capaz de alterar até minha experiência de espaço-tempo materializando de fato uma realidade mais promissora e aprazível.
Começo dizendo “sim” para mim. Até criar o buraco de minhoca que me leve a uma nova dimensão de mim mesmo.
Por que não?!?
Links


sábado, 24 de dezembro de 2011

Amor Neurótico X Amor Maduro

Grouxo Marx disse: “Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”.

Esta me parece a melhor definição de neurose.

A neurose é a doença psicológica que nos faz humanos. Todo ser humano dito normal é, no mínimo, um neurótico.

Alguém já conseguiu curar-se de todas suas neuroses? Talvez os iluminados, aqueles que transcenderam o ego infantil e influenciável com o qual tendemos nos guiar.

O pior da neurose está na forma como conduz nossas relações. O amor infantil, daquele que projeta no outro a origem dos seus problemas e espera do outro todas as soluções e respostas.

Na neurose, somos dependentes, irresponsáveis e imaturos. A culpa está lá fora. O governo, a família, o sistema, a sociedade. A culpa é dos pais. A culpa é de Deus. Por que ele não fez um mundo perfeito?

Imagine engendrar um relacionamento, tentar amar, com essa mentalidade. Qualquer resultado só pode ser catastrófico, pois na neurose somos infantis e projetamos no outro tudo. Iludimo-nos com a idéia de fazer tudo pelo outro na eterna espera de que o outro supra nossas mais secretas necessidades.

Na Neurose não existe amor próprio. Não há auto-estima. Por isso quando o outro diz que te ama, você não acredita. Como alguém pode amar uma criatura como você???

Daí a necessidade eterna de testar este dito amor. Começam os jogos neuróticos. Você se doa e espera doação extrema. Mas sem nunca ter definido antes as regras de conduta com seu parceiro. Falamos meias palavras, insinuamos, e esperamos compreensão plena.

Como algo assim pode “dar certo”?

Alguns filmes me vêm à memória para ilustrar o que digo.

No francês “Me diz se sou bonita” (J´me sens pás belle - 2004) vemos uma jovem digladiando-se contra seus próprios pensamentos e crenças na tentativa de uma noite de paixão com um colega de trabalho. Chega a ser engraçado ver suas ações conduzidas pela visão negativa que tem de si mesma.

Na neurose, não existimos para nós mesmos. Precisamos do aval do outro para crer que existimos. Então sacrificamos nossa natureza, vestimos um personagem que, cremos, irá agradar ao outro. Esse processo tende a se iniciar na infância quando buscamos a aprovação e a atenção dos nossos neuróticos responsáveis. E assim permanecemos nos relacionamentos, apesar da aparência adulta. Filho de neurótico, neuroticuzinho é!

“Em busca do prazer” (The OH in Ohio - 2006) dá um passo adiante exibindo as influências da neurose na sexualidade humana. O neurótico almeja ser a fonte de prazer infinito do seu parceiro e espera dele, no mínimo, o mesmo. Mas sem nunca falar da relação como uma troca lúcida/lúdica. Vemos a personagem de Parker Posey na sua epopéia em busca do orgasmo pleno, enfrentando suas neuras, amadurecendo e se assumindo como mulher merecedora de prazer. Rimos de suas tentativas e gozamos com sua coragem.

Muitos desistem da busca de felicidade nos relacionamentos e acabam migrando para um estilo de vida monástico, isolado, distante, às vezes celibatário, mas quase sempre falsamente maduro.

“Amor sem escalas” (Up in the air - 2009) foi um dos filmes que mais me surpreendeu nos últimos tempos. Vemos George Clooney atuando como um consultor que demite funcionários para empresas por toda América. Na verdade há toda uma mística arquetípica travestida de modernidade. A personagem de Clooney age como um monge missionário, eremita-andarilho, engendrando uma filosofia quase budista de desapego. Nas horas vagas palestra sobre o essencial a se levar numa mochila. Em certo ponto encontra uma discípula no melhor estilo padauan de Star Wars. E como todo buscador espiritual, almeja a iluminação, o encontro do santo graal, o cartão vip ouro daqueles que atingem o número máximo de milhas de sua companhia aérea. Seu derradeiro encontro com o comandante da aeronave remete aos encontros místicos com os sábios ocultos, quando ganhamos o direito de fazer a pergunta crucial de nossas vidas. E vemos mais um bobo que, como todo neurótico, sonha com uma vida perfeita de comercial de margarina. E assim o filme nos deixa, às portas da saudável e necessária desilusão, remédio doloroso mas necessário para aquisição da maturidade.

E finalmente uma pérola recente, adaptada da linguagem de vídeo-game e dos quadrinhos: “Scott Pilgrim contra o mundo” (Scott Pilgrim VS. The world - 2010). Vemos um jovem que amadurece e desenvolve suas habilidades ao longo da jornada pelo amor de uma garota, enfrentando seus letais ex-namorados. A linguagem é quase didática. A cada superação, uma nova fase. E no final, só a auto-estima pode ser a chave para um verdadeiro amor.


Pessoalmente, ainda estou engatinhando em matéria de amor. Mas sou capaz de traçar algumas compreensões.

Só aquele que realmente se ama pode amar ao próximo.

Um amor que exige provas não pode ser um verdadeiro amor.

O amor verdadeiro liberta. O amor verdadeiro faz bem. Se você se sente mal ou preso, não sente amor. Sente carência.

Quem nos completa somos nós mesmos. O outro é apenas um companheiro de viagem, alguém com quem compartilhar sentimentos e experiências.

Amar é trocar bênçãos.

Um amor maduro não segue regras lógicas. Por isso é incomparável e novo a cada instante.

E definitivamente quero estar em um clube em que sou aceito do jeito que sou. O clube da auto estima.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011


No fim do Arco-Íris

Todo mundo já ouviu aquele história de que no fim do arco-íris existe um pote de ouro. Não sei qual a origem deste mito, mas pergunto: Você já alcançou alguma vez o fim de um arco-íris?

A física explica a formação deste fenômeno como a refração da luz do sol em gotículas de água das nuvens ou da chuva, como se a água formasse um cristal na qual a luz branca incide, decompondo-se nas famosas sete cores. O arco-íris não deixa de ser um fenômeno de projeção de luz. Por mais que tentemos perseguir o seu local de inicio ou de fim, não se trata de algo exatamente tangível, ainda que a definição de luz seja controversa para aqueles que não são iniciados nos mistérios da física. Luz é definida como um não sei o que entre a matéria e a energia: os fótons.

Quanto mais você persegue o arco-íris, mais ele se distancia. Muitas vezes se desfaz, revelando-se uma projeção ou uma ilusão. E nada de pote de ouro.

Semelhante é nossa busca pelos tesouros da vida. Desde cedo, educação, pais, escola, mídia e sociedade nos propõe a busca de certos objetivos considerados importantes para um ser humano se realizar. Um bom emprego, conseguir se sustentar, encontrar a cara-metade, constituir família, enriquecer, prosperar, carro do ano, casa na praia, TV de plasma e tablets e vídeo-games para as crianças no natal.

Há sempre um tesouro a alcançar. Mas por mais que nossos objetivos sejam conquistados, após uma momentânea alegria, surge um algo mais. E reiniciamos a jornada até o fim do arco-íris.

Muito na filosofia já se falou da eterna busca. Há essa permanente sensação de que sempre nos falta algo. Mudamos o cenário, trocamos os objetos de desejo, mas a busca nunca para.

Freud dizia que a sensação de completude e conforto só existia no calor do útero materno. Após o trauma do nascimento somos condenados a uma aflitiva sensação de incompletude e, por mais que caminhemos, não há retrocesso nem retorno ao ventre. Saímos do útero da mãe com apenas um destino certo: o útero da terra.

Para os budistas, falando de forma simplista, sofremos porque desejamos. Eliminem os desejos, e os sofrimentos desaparecerão.

Daí a idéia do Nirvana, como renuncia aos desejos, focando numa elevação espiritual, aí sim, repleta de completude. O pote de ouro dos budistas tende a ser transcendental, talvez tão etéreo quanto o arco-íris.

Recentemente concluí a leitura da obra “Consciência Cósmica”, de autoria do médico canadense Richard Meurice Bucke. Foi interessante a maneira sincrônica como cheguei à ele. Boa parte da leitura realizei sob a benção de uma praia paradisíaca.

A versão que encontrei é uma primeira versão de 1996 editada pela AMORC. A primeira edição Americana data de 1901 e o autor viria a falecer um anos depois, ou seja, antes do entendimento de conceitos como Self e inconsciente coletivo.

Dr. Buke foi psiquiatra, dirigente de um sanatório e grande amigo do poeta americano Walt Whitman, de quem teria escrito uma biografia.

O saudoso doutor aborda de maneira bastante científica um fenômeno que experienciou pessoalmente: a consciência cósmica.

Descreve como uma sensação de banho em luz e calor, como um fogo, seguido de sensação de bem estar, convicção de eternidade da vida e conexão com todos os entes do universo.

A experiência foi-lhe tão arrebatadora que percebeu a necessidade de pesquisar e esquadrinhá-la numa obra, onde inicia por estabelecer sua tese evolutiva, aos moldes do conceito darwinista, de que todos os seres humanos, assim como passaram da consciência simplista para a autoconsciência, também passarão da autoconsciência para a consciência cósmica.

Daí faz um estudo de diversos casos de pessoas notáveis que, por sua análise, considera detentores ou experienciadores da nova faculdade, passando por nomes como Buda, Cristo, Paulo, Maomé, até Dante, Sheakspeare e o próprio Walt Whitman.

Ressalta ainda a apreciação que as filosofias orientais sempre dispensaram a tal fenômeno, tão pouco aludido nas ciências ocidentais. Em particular, as buscas dos yoges e budistas do estado de Nirvana. Por exemplo, notando como característica de alguns dos casos estudados, que o fenômeno de consciência cósmica é muitas vezes precedido de um estado de silencio mental. Daí a procura da meditação como caminho para muitos sábios, a fim de se criarem condições propícias para o fenômeno.

Fiquei sensibilizado com a profundidade e coerência de seu texto, principalmente em se tratando de um estudo datado de mais de um século.

O que tem isso a ver com o pote de ouro no fim do arco-íris?

Percebo que se há um objetivo pelo qual realmente valha à pena caminhar, a expansão de consciência é esse objetivo, e a experiência de consciência cósmica é a cereja do bolo.

Mas nosso doutor faz o favor de lembrar a aparente espontaneidade do fenômeno nos casos estudados. Ou seja, não é você que chega à consciência cósmica, mas a consciência cósmica que se derrama sobre você.

Assim como Buda sob a figueira ou Cristo no deserto. Fecha teus olhos, senta-te sobre teu próprio ser, relaxa, respira e contempla então o tesouro que esteve o tempo todo dentro de ti. E ao abrir os olhos rejubila-te com o arco-íris ao teu redor.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011


3 véias de arrepiar

Tive a mágica experiência de assistir à peça “As Três Velhas” neste domingo. Já há algum tempo venho me embrenhando no prolífico universo das criações de Alejandro Jodorowsky e já escrevi aqui que não queria perder a oportunidade de ver essa peça, mas não poderia imaginar que fosse tudo tão intenso e profundo.

O estreito espaço do Galpão de Folias se transforma num útero acolhedor para uma revelação impactante. Somos confrontados com nossas máscaras e neuroses, brindados com a possibilidade de uma vida natural, onde os milagres acontecem quando aceitamos ser nós mesmos, com todas as aparentes idiossincrasias, sem julgamentos e condenações.

Congratulações ao elenco, à direção primorosa e às corajosas e despojadas interpretações. O que presenciei não foram simples atuações, mas a doação de corpo, voz e espírito, que não poderiam ser encaradas por qualquer um.

Maria Alice Vergueiro, Danilo Grangheia e principalmente Luciano Chirolli, nos impressionam.

Além de tudo há a simpatia da produção.

Eu vinha planejando assistir ao espetáculo sozinho, imaginando que não encontraria companheiros dispostos a encarar algo que muitos considerariam no mínimo inusitado. Mas de forma imprevista acabou que compartilhei a experiência com meus pais e meu grande amigo Luciano. Para todos nós foi um acontecimento marcante, denso e positivamente transformador.

Minha mãe abraçando Luciano Chirolli (Melissa)

Super recomendado. Apressem-se, pois é a última semana:


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Minhas Férias

Quando era pequeno, todo retorno às aulas era acompanhado por uma redação com o título acima. Até hoje creio que professores estressados cobram o mesmo tema.

Tive 15 dias de férias e uma semana em Arraial d’Ajuda (BA) que foi quase o equivalente a um mês de aventura. Há certos lugares da Bahia que, quando visitados em estado de espírito favorável, funcionam como um portal para o paraíso. E assim me senti.

A começar por minha proposta inicial, de uma jornada quase iniciática, só, munido apenas de um exemplar de sebo do Consciência Cósmica, minha câmera fotográfica e meu diário de viagens.

Tive a sorte de um quarto sossegado na modesta e quase familiar Pousada do Xão. Nos primeiros dias aventurei-me a pé pela orla, primeiro até a praia do Taipe, nas falésias ao norte, e depois na ponta da praia, Apagafogo, ao sul. Creio que a caminhada na areia fez bem aos meus pés. A paisagem e a solidão alimentaram-me o espírito.

Os passeios oferecidos pelas companhias de turismo são os mesmo de quem se hospeda em Porto Seguro. Já tinha feito quase todos numa outra viagem ao distrito mais agitado, há uns seis anos. Optei por uma única aventura na praia do Espelho pela Fascinio Tur. Uma praia deserta onde um pequeno rio cristalino se encontra com as águas do mar.

Quando criança, fui surpreendido certa vez por algo marrom me perseguindo nas águas da Praia Grande. Desta vez, durante um mergulho na praia do Espelho, notei algo marrom e oval ao me lado. Pensei ser uma casca de arvore, quando de repente surgiu uma cabecinha marrom, com uma circunferência branca ao redor dos olhos. Uma mágica tartaruga marinha que me espiou e retornou aos seus afazeres no reino dos mares. Senti-me abençoado.

Em Arraial existe uma charmosa rua repleta de restaurantes. A rua do Mucugê tem opções para todos os gostos, sorveterias, casas com música ao vivo. A maioria chefiada por gente de fora. Os preços são relativamente caros, mas não absurdos. Porém, certa noite, perambulando pelo centro do distrito, deparei-me com um modesto restaurante chamado PF do Paulo Pescador. Apenas R$20,00 reais o prato, pagamento só em dinheiro ou cheque. Mas o tempero caseiro, a comida servida em cumbucas de barro, a simpatia dos proprietários, torna tudo mágico. E ainda havia Cerveja Original, a – 4o C. A chef, Sra. Yonala, e sua filha Nathalia, brindaram-me com uma gostosa conversa ao fim da refeição. Mais uma benção.

Na 5ª feira, como já é tradição na pousada, Sr. Xão organizou um churrasco ao estilo gaúcho para favorecer a interação entre os hóspedes e até alguns locais. Foi quando resolvi sair um pouco da minha proposta de solidão, e conheci pessoas maravilhosas. A começar pelos espirituosos mineiros Dilo e Gilson, uma dupla dinâmica e aventurosa. Conheci também Sr. Sérgio, um autêntico pirata mineiro cuja falta de uma perna jamais o impediu das mais fantásticas epopeias. E também uma família de Atibaia, assíduos frequentadores do saudoso Bar do Alemão, Sra. Denise, o pequeno Pedro, o Fera, e o benzedor Fernando, a quem não se pode dar outro título que se não o de verdadeiro Amigo.

Mas foi na 6ª feira, já as vésperas do fim dessa viajem, que uma força me levou até a cabana zen Flor do Sal, na praia do Pitinga. Conheci o casal de Campinas, Luis e Eliana, e pude estreitar laços com a espontânea tia Margareth e a inesquecível fada Taís. Formou-se um grupo bastante pitoresco, numa paisagem arrebatadora, duma tarde de delícias e uma noite de extraordinárias surpresas.

Não tive vontade de voltar. O clima, a paisagem, as pessoas. Somando-se às revelações de uma leitura elucidativa. Estou transformado. A palavra que me vem à mente para sintetizar tudo é Benção. Sinto-me divinamente abençoado.

Assista no You Tube (antes que censurem).


Meu próximo destino: Porto Alegre !?


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Decepção em super 8

Assisti Super 8 e saí de lá sentindo-me meio que enganado.

Se você ainda não viu ao filme, pare por aqui se não terá sua surpresa estragada. Enfim...

Nas duas ultimas semanas surgiram dezenas de artigos celebrando a união de J. J. Abrams com Steven Spielberg, como um dos acontecimentos mais importantes do cinema deste ano, comparando o filme, dirigido pelo primeiro e produzido pelo segundo, a clássicos dos anos 80 como The Gooinies e ET, o ExtraTerrestre.

A campanha de marketing foi maciça e o trailer prometia.

A história básica é simples. Um garoto que recentemente perdeu sua mãe de forma trágica se envolve na produção de um filminho de zumbis dirigido por seu melhor amigo. Os garotos usam uma câmera super 8 para gravar suas cenas e acabam involuntariamente registrando um acidente de trem das forças armadas americanas, de onde escapa um ser misterioso.

Pessoas começam a sumir, acontecimentos estranhos e adivinha?? O ser era um ET confinado pelo exército que no fundo só queria voltar para casa (“ET telefone casa”).

Para dar pistas da história J.J. usa recursos já empregados na série LOST, como os filmes perdidos da Iniciativa Dharma. Há alguma tentativa de se criar o espírito de grupo como o que existe entre os garotos dos filmes Goonies e ET, mas não convence. Os personagens secundários, os outros garotos, são pouco explorados. O diretor optou por centralizar a trama no drama do garoto órfão tentando superar a perda da mãe e retomar contato com seu pai. Toda a aventura fica realmente em segundo plano e novamente surge o super 8 para nos dar alguma dimensão de sua perda, mostrando-nos cenas caseiras da mãe querida.

Outra coisa pouco explorada parece ser o universo feminino. A principal personagem feminina é a namoradinha do garoto. Super 8 talvez tente ser um filme para meninos, um clube do bolinha que começa a mudar com a chegada da puberdade. Repetindo outro filme seu, vemos o garoto empenhando em resgatar sua amada, atravessando uma cidade em estado de calamidade, quase igual a Cloverfield.

E na hora mais derradeira, quando o monstro alienígena finalmente o alcança, prestes a despedaçar todos pela frente, nosso herói faz uso da arma mais letal de todas: o olhar do gato de botas do Shrek. Aí o monstro desiste de persegui-los, termina de construir sua nave e vai embora. Mas há uma explicação para isso. Nosso monstro faz um tipo de telepatia ao toque, ou empatia,enfim, mas é capaz de entender e se comunicar ao tocar. Pena que não teve piedade das pessoas que comeu ao longo do filme. Afinal, o ET era bonzinho, o exercito americano que é malvado.

Este enfrentamento do “monstro” é a simbolização de um fenômeno psicológico interessante. O que é o monstro? Recentemente venho aprendendo que muitas vezes conteúdos psicológicos e emocionais mal trabalhados, ou até características pessoais negadas, podem se manifestar em nossa vida cotidiana de forma mórbida, monstruosa, a fim de fazer notar o que precisa ser revisto e ressignificado. Isso é nítido em filmes de vampiro e lobisomem onde a sexualidade negada ressurge na forma de lobos ou seres sugadores repletos de sensualidade. Precisamos lembrar que Bram Stoker viveu na repressora era vitoriana. Acho até que se a Bela finalmente liberasse geral não haveria tantos vampiros e lobisomens na série Crepúsculo.

Em todo filme de monstro que se preze há essa simbologia de ressignificação do mal manifestado, a partir do enfrentamento. Afinal, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Quanto mais tarde enfrentar o monstro, mais estrago ele causa. E o que é o monstro? Um parte de mim que eu neguei, geralmente devido alguma idealização imposta. Assim, a cultura americana continua idealizando seu modo de vida, apostando tudo no consumismo como fuga. E os monstros vão surgindo aos montes para nos lembrar de nossa humanidade perdida.

Acho que estamos tão carentes de produções mais profundas que acabamos superestimando filmes pequenos. Super 8 é só mais um blockbuster com quase nenhuma originalidade. Até a propaganda do walkman da sony soou estranha. Sou muito mais o IT:

Sou nostálgico e valorizo aquilo que faz sentir-me bem:

E para quem gosta de gatos:

Não vejo a hora de assistir esse!!