Um homem, uma mulher, um encontro.
Sem as ansiedades das ilusões de perspectivas futuras.
Uma mulher, sendo apenas ela mesma.
Um encontro. Nada mais.

Amor Neurótico X Amor Maduro
Grouxo Marx disse: “Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”.
Esta me parece a melhor definição de neurose.
A neurose é a doença psicológica que nos faz humanos. Todo ser humano dito normal é, no mínimo, um neurótico.
Alguém já conseguiu curar-se de todas suas neuroses? Talvez os iluminados, aqueles que transcenderam o ego infantil e influenciável com o qual tendemos nos guiar.
O pior da neurose está na forma como conduz nossas relações. O amor infantil, daquele que projeta no outro a origem dos seus problemas e espera do outro todas as soluções e respostas.
Na neurose, somos dependentes, irresponsáveis e imaturos. A culpa está lá fora. O governo, a família, o sistema, a sociedade. A culpa é dos pais. A culpa é de Deus. Por que ele não fez um mundo perfeito?
Imagine engendrar um relacionamento, tentar amar, com essa mentalidade. Qualquer resultado só pode ser catastrófico, pois na neurose somos infantis e projetamos no outro tudo. Iludimo-nos com a idéia de fazer tudo pelo outro na eterna espera de que o outro supra nossas mais secretas necessidades.
Na Neurose não existe amor próprio. Não há auto-estima. Por isso quando o outro diz que te ama, você não acredita. Como alguém pode amar uma criatura como você???
Daí a necessidade eterna de testar este dito amor. Começam os jogos neuróticos. Você se doa e espera doação extrema. Mas sem nunca ter definido antes as regras de conduta com seu parceiro. Falamos meias palavras, insinuamos, e esperamos compreensão plena.
Como algo assim pode “dar certo”?
Alguns filmes me vêm à memória para ilustrar o que digo.
No francês “Me diz se sou bonita” (J´me sens pás belle - 2004) vemos uma jovem digladiando-se contra seus próprios pensamentos e crenças na tentativa de uma noite de paixão com um colega de trabalho. Chega a ser engraçado ver suas ações conduzidas pela visão negativa que tem de si mesma.
Na neurose, não existimos para nós mesmos. Precisamos do aval do outro para crer que existimos. Então sacrificamos nossa natureza, vestimos um personagem que, cremos, irá agradar ao outro. Esse processo tende a se iniciar na infância quando buscamos a aprovação e a atenção dos nossos neuróticos responsáveis. E assim permanecemos nos relacionamentos, apesar da aparência adulta. Filho de neurótico, neuroticuzinho é!
“Em busca do prazer” (The OH in Ohio - 2006) dá um passo adiante exibindo as influências da neurose na sexualidade humana. O neurótico almeja ser a fonte de prazer infinito do seu parceiro e espera dele, no mínimo, o mesmo. Mas sem nunca falar da relação como uma troca lúcida/lúdica. Vemos a personagem de Parker Posey na sua epopéia em busca do orgasmo pleno, enfrentando suas neuras, amadurecendo e se assumindo como mulher merecedora de prazer. Rimos de suas tentativas e gozamos com sua coragem.
Muitos desistem da busca de felicidade nos relacionamentos e acabam migrando para um estilo de vida monástico, isolado, distante, às vezes celibatário, mas quase sempre falsamente maduro.
“Amor sem escalas” (Up in the air - 2009) foi um dos filmes que mais me surpreendeu nos últimos tempos. Vemos George Clooney atuando como um consultor que demite funcionários para empresas por toda América. Na verdade há toda uma mística arquetípica travestida de modernidade. A personagem de Clooney age como um monge missionário, eremita-andarilho, engendrando uma filosofia quase budista de desapego. Nas horas vagas palestra sobre o essencial a se levar numa mochila. Em certo ponto encontra uma discípula no melhor estilo padauan de Star Wars. E como todo buscador espiritual, almeja a iluminação, o encontro do santo graal, o cartão vip ouro daqueles que atingem o número máximo de milhas de sua companhia aérea. Seu derradeiro encontro com o comandante da aeronave remete aos encontros místicos com os sábios ocultos, quando ganhamos o direito de fazer a pergunta crucial de nossas vidas. E vemos mais um bobo que, como todo neurótico, sonha com uma vida perfeita de comercial de margarina. E assim o filme nos deixa, às portas da saudável e necessária desilusão, remédio doloroso mas necessário para aquisição da maturidade.
E finalmente uma pérola recente, adaptada da linguagem de vídeo-game e dos quadrinhos: “Scott Pilgrim contra o mundo” (Scott Pilgrim VS. The world - 2010). Vemos um jovem que amadurece e desenvolve suas habilidades ao longo da jornada pelo amor de uma garota, enfrentando seus letais ex-namorados. A linguagem é quase didática. A cada superação, uma nova fase. E no final, só a auto-estima pode ser a chave para um verdadeiro amor.
Pessoalmente, ainda estou engatinhando em matéria de amor. Mas sou capaz de traçar algumas compreensões.
Só aquele que realmente se ama pode amar ao próximo.
Um amor que exige provas não pode ser um verdadeiro amor.
O amor verdadeiro liberta. O amor verdadeiro faz bem. Se você se sente mal ou preso, não sente amor. Sente carência.
Quem nos completa somos nós mesmos. O outro é apenas um companheiro de viagem, alguém com quem compartilhar sentimentos e experiências.
Amar é trocar bênçãos.
Um amor maduro não segue regras lógicas. Por isso é incomparável e novo a cada instante.
E definitivamente quero estar em um clube em que sou aceito do jeito que sou. O clube da auto estima.
Todo mundo já ouviu aquele história de que no fim do arco-íris existe um pote de ouro. Não sei qual a origem deste mito, mas pergunto: Você já alcançou alguma vez o fim de um arco-íris?
Quanto mais você persegue o arco-íris, mais ele se distancia. Muitas vezes se desfaz, revelando-se uma projeção ou uma ilusão. E nada de pote de ouro.
Semelhante é nossa busca pelos tesouros da vida. Desde cedo, educação, pais, escola, mídia e sociedade nos propõe a busca de certos objetivos considerados importantes para um ser humano se realizar. Um bom emprego, conseguir se sustentar, encontrar a cara-metade, constituir família, enriquecer, prosperar, carro do ano, casa na praia, TV de plasma e tablets e vídeo-games para as crianças no natal.
Há sempre um tesouro a alcançar. Mas por mais que nossos objetivos sejam conquistados, após uma momentânea alegria, surge um algo mais. E reiniciamos a jornada até o fim do arco-íris.
Muito na filosofia já se falou da eterna busca. Há essa permanente sensação de que sempre nos falta algo. Mudamos o cenário, trocamos os objetos de desejo, mas a busca nunca para.
Freud dizia que a sensação de completude e conforto só existia no calor do útero materno. Após o trauma do nascimento somos condenados a uma aflitiva sensação de incompletude e, por mais que caminhemos, não há retrocesso nem retorno ao ventre. Saímos do útero da mãe com apenas um destino certo: o útero da terra.
Para os budistas, falando de forma simplista, sofremos porque desejamos. Eliminem os desejos, e os sofrimentos desaparecerão.
Daí a idéia do Nirvana, como renuncia aos desejos, focando numa elevação espiritual, aí sim, repleta de completude. O pote de ouro dos budistas tende a ser transcendental, talvez tão etéreo quanto o arco-íris.
Recentemente concluí a leitura da obra “Consciência Cósmica”, de autoria do médico canadense Richard Meurice Bucke. Foi interessante a maneira sincrônica como cheguei à ele. Boa parte da leitura realizei sob a benção de uma praia paradisíaca.

A versão que encontrei é uma primeira versão de 1996 editada pela AMORC. A primeira edição Americana data de 1901 e o autor viria a falecer um anos depois, ou seja, antes do entendimento de conceitos como Self e inconsciente coletivo.
Dr. Buke foi psiquiatra, dirigente de um sanatório e grande amigo do poeta americano Walt Whitman, de quem teria escrito uma biografia.
O saudoso doutor aborda de maneira bastante científica um fenômeno que experienciou pessoalmente: a consciência cósmica.
Descreve como uma sensação de banho em luz e calor, como um fogo, seguido de sensação de bem estar, convicção de eternidade da vida e conexão com todos os entes do universo.
A experiência foi-lhe tão arrebatadora que percebeu a necessidade de pesquisar e esquadrinhá-la numa obra, onde inicia por estabelecer sua tese evolutiva, aos moldes do conceito darwinista, de que todos os seres humanos, assim como passaram da consciência simplista para a autoconsciência, também passarão da autoconsciência para a consciência cósmica.
Daí faz um estudo de diversos casos de pessoas notáveis que, por sua análise, considera detentores ou experienciadores da nova faculdade, passando por nomes como Buda, Cristo, Paulo, Maomé, até Dante, Sheakspeare e o próprio Walt Whitman.
Ressalta ainda a apreciação que as filosofias orientais sempre dispensaram a tal fenômeno, tão pouco aludido nas ciências ocidentais. Em particular, as buscas dos yoges e budistas do estado de Nirvana. Por exemplo, notando como característica de alguns dos casos estudados, que o fenômeno de consciência cósmica é muitas vezes precedido de um estado de silencio mental. Daí a procura da meditação como caminho para muitos sábios, a fim de se criarem condições propícias para o fenômeno.
Fiquei sensibilizado com a profundidade e coerência de seu texto, principalmente em se tratando de um estudo datado de mais de um século.
O que tem isso a ver com o pote de ouro no fim do arco-íris?
Percebo que se há um objetivo pelo qual realmente valha à pena caminhar, a expansão de consciência é esse objetivo, e a experiência de consciência cósmica é a cereja do bolo.
Mas nosso doutor faz o favor de lembrar a aparente espontaneidade do fenômeno nos casos estudados. Ou seja, não é você que chega à consciência cósmica, mas a consciência cósmica que se derrama sobre você.
Assim como Buda sob a figueira ou Cristo no deserto. Fecha teus olhos, senta-te sobre teu próprio ser, relaxa, respira e contempla então o tesouro que esteve o tempo todo dentro de ti. E ao abrir os olhos rejubila-te com o arco-íris ao teu redor.