domingo, 11 de janeiro de 2015

O AMOR VERDADE


Faz tempo que não escrevo por aqui, mas isso não quer dizer que estou menos inventivo. De modo que, para um retorno promissor, nada melhor do que falarmos de amor.

Vivo retornando ao tema, afinal é universal. Vejam um pouco sobre o amor neurótico aqui, e sobre minhas “pesquisas” em amor aqui. Sigo agora com mais algumas conclusões, lembrando que não sou dono de certeza nenhuma, apenas um mercador das minhas incertezas.


O AMOR VERDADE é o amor incondicional.

Existe um ponto em nosso coração cuja localização equivale a achar o ponto de embreagem em um automóvel ou veículo motorizado. O ponto em que o veículo anda sem o motor falhar. O ponto de embreagem. O ponto do AMOR VERDADE em nosso peito.

Nesse ponto sinto como uma névoa benfazeja, úmida e refrescante, que me preenche e me circunda. Uma aceitação plena do que sou e da condição em que estou, sem nenhum tipo de crítica ou exigência.

Como o bater de asas de um zilhão de fadas nuas, fadas safadas, o AMOR VERDADE é ao mesmo tempo erótico e puro, revigorante e enternecedor.

Somos educados para acreditar que nos falta o amor.

Família, escola e sociedade baseiam a formação do sujeito no antigo método de punição e recompensa a ponto de acreditarmos que determinadas ações e posturas merecem amor e outras repúdio. Assim aprendemos a amar-nos quando julgamo-nos corretos e a repudiarmo-nos naquilo que julgamos um erro.

Parecer belo e rico, estar dentro das normas, é o que nos faria amados. Mas não somos amados por inteiro. Daí esse amor, neurótico, nunca ser pleno. Pelo contrário, é cheio de medo, pois gera a tensão de nos mantermos no “certo”. Este é o amor que faz sofrer, cantado em músicas e declamado em poesias.     Uma fantasia de amor repleta de condições e condicionamentos.

Há muito que se depurar nessa fantasia de amor para se vislumbrar o AMOR VERDADE.

Julgamos que o amor que procuramos estará no outro ao invés de o deixarmos brotar de nós mesmos.

Quando realmente discerni esse AMOR pela primeira vez, ao abraçar uma ex-namorada, sabia que o amor que sentia não vinha dela. Esse AMOR estava em tudo. Ela se emocionava em lágrimas nos meus braços, talvez temendo o que sentia.

Agora entendo que EU sou o responsável pelo amor que sinto.

De fato este é o amor que quero em todas as dimensões do meu ser, crescendo ad infinitum por todos os aspectos da vida.

Esse AMOR não está sujeito a pessoas, objetos ou circunstâncias. Ele já está em nós. Mas a neblina das fantasias superficiais impostas em nossa educação, como uma tela em que se projeta um filme ruim, nos impede de perceber o que já está lá, apenas um pouco mais fundo.

Desde minha descoberta tenho me empenhado em achar esse ponto de AMOR e fazê-lo vibrar, incondicionalmente. A sensação é muuuito boa.

Não espere amor incondicional dos outros, principalmente daqueles que ainda estão distantes do despertar.

Deixe claro para si mesmo: “Não imponho condições para o amor que sinto. Sou livre.”

Não limite o amor que sente, não o sujeite a nenhuma condição. O AMOR VERDADE é livre como um gato soturno olhando tudo de cima, saltando muros e correndo em telhados.

O AMOR VERDADE é incondicional.


                

domingo, 16 de junho de 2013

Homem de Ferro e os 20 centavos



Para quem não viu Iron Man 3, cuidado! Contém spoilers!

Meu primeiro contato com o Homem de Ferro foi com os desenhos que passavam no Balão Mágico, inicio dos anos 80, na Globo. Bonecos estáticos que quase não se moviam e diálogos que ficaram definitivamente datados. Eu via muita TV quando era pequeno.


Mas nesses desenhos que me iniciei no Universo Marvel, conheci os Vingadores, Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Capitão America, etc.

Lá conheci também o Mandarim. De longe o melhor arquiinimigo do Homem de Ferro, com seus anéis mágicos e sua gana de poder.

Quando assisti ao primeiro Homem de Ferro, e vi os planos detalhes no anel do líder terrorista afegão, logo pensei num prólogo que nos levaria ao derradeiro vilão dos dez anéis num embate final.


Os anúncios da pré-estréia do terceiro filme pareciam cumprir com o prólogo imaginado. No início do filme, vemos Tony Stark ainda abalado com os eventos de “Os Vingadores”. Lidar com um deuses nórdicos, monstros, aliens e passagens espaços-temporais são demais para um mero ser humano numa armadura tecnológica. Vemos o herói invadido por ataques ansiosos de pânico, consciente da incapacidade de proteger completamente sua amada e entregue à insônia nervosa, completamente workaholic, trabalhando sem parar em evoluções de suas armaduras. Neste cenário surge a figura terrorista do Mandarim, tocando o terror e ameaçando-o completamente com uma nova arma inicialmente indetectável.

Mas o novo Mandarim não usa seus anéis mágicos. O novo Mandarim, descobrimos depois, é só um ator pirado brilhantemente interpretado por Ben Kingsley, usado como embuste por uma organização criminosa chefiada por um cientista (Guy Pearce) vingativo e alucinado. A prerrogativa não é nova. Precisamos dar uma cara ao terror, nomear um mal, para manter a população com medo e justificar a paranóia belicista que mantém a mil as indústrias de armas e as políticas de controle do cidadão, justificar o big brother e a necessidade de líderes paternalistas nos protegendo e guiando quando somos incapazes e ignóbeis.

Já vimos isso em “A Vila” de M. Night Shyamalan. Os líderes precisam manter seus dominados com medo e alienados para permanecerem manipulados, sob uma ordem estatizada. Também em “Watchmen”, o homem comum é visto como incapaz de se auto gerir devendo o poder ficar nas mãos de aristocracias auto intituladas sejam por quais razões o forem. Até a animação da Pixar que amo tanto, “Os Incríveis”, usa a idéia da ameaça estrangeira (ou alienígena) para justificar a carência por “heróis”. Em todos os exemplos, a ameaça real não vem de fora. A ameaça é um truque para justificar intenções de controle internas dos verdadeiros vilões, muitas vezes líderes patriotas, que se crêem mais capazes de decidir pela maioria, cheios de boas intenções, cujos fins justificam todos os meios. Algo assim vira e mexe acontece na nossa história, como quando aquele cara alemão teve a idéia de purificar a raça humana por exemplo. E a mãe Rússia, que em nome da igualdade de recursos, um fim tão nobre, matou milhares e manteve por décadas ferrenho controle da liberdade de expressão. E Obama que defende o american way of life vigiando todo o mundo nos nossos facebooks inocentes.

No Brasil?! Ah o Brasil! Terra maravilhosa de naturezas mil, população dócil e eternamente feliz. No Brasil cada vez mais a classe política não se envergonha de sua patologia sociopática endêmica, desviando verbas e permanecendo impune como reis, déspotas e coronéis, usando qual ideologia quiserem para se justificarem.  No Brasil a inflação, desconhecida de duas gerações, volta sorrateira, acirrando os preços, disfarçada de fartura das classes baixas, como se fosse um elogio a dita melhoria do poder de compra de um povo, eternamente inculto, mal educado e pilantra. Pilantra crendo-se esperto, em vantagem com as bolsas maravilhas e sem reais oportunidades de melhoria e mudança de vida, sem educação, sem formação, sem evolução.

O Brasil do esporte, onde só o futebol tem espaço na mídia, e há pouquíssimo incentivo a outras modalidades. Onde a Copa do Mundo tornou-se a copa mais cara da história.

O Brasil onde as escolas parecem prisões e ainda se discute se os professores merecem aumento. O Brasil de Juazeiro, onde houve decréscimo nos rendimentos dos docentes.

O Brasil da megalópole São Paulo, terra das oportunidades, onde milhares se amontoam e transitam como mortos-vivos, conformados com poluição, trânsito, violência, altos custos, síndromes do pânico e péssima qualidade de vida.

O Brasil onde crêem que não existe memória nem cultura, o Brasil que dizimou o Paraguai sob as ordens de Caxias, e que enfrentou a república em Canudos, interior da Bahia. O Brasil da Chibata. Das guerrilhas armadas da década de 60.

O Brasil de um povo que luta, luta, luta...  mas que parece não saber ainda pelo que realmente lutar.

O Brasil onde, quem diria, acharam que o povo não ia chiar com mais 20 centavos no orçamento.

Mas o grilo falante não me dá sossego, cochichando sem parar algo como “cada povo tem o governo que merece”.

Aí chegamos ao ponto. Vivemos um regime democrático onde nossos líderes são escolhidos pela maioria de votos. Isso significa que, se uma liderança partidária quiser se manter no poder – veja bem, eu disse PODER, pois quando um partido quer PODER, é porque ele já se esqueceu dos interesses da população que inicialmente representava – mas voltando, para manter-se no poder, a liderança partidária precisa da maioria dos votos. Aí começam os conchavos e manipulações, apelando para lobbys, megacordos partidários e trocas de favores, onde até lideranças de bairro recebem benefícios pessoais em troca de cartéis de votos. Deixam-se de lado os cidadãos, com direitos e deveres, e entram em cena os eleitores. Em sua medíocre ingenuidade, o eleitor procura por benefícios pessoais, que vão desde um auxílio social, quando não se encaixa no perfil, até um lugar mais favorável numa fila onde a princípio todos seriam iguais. A busca do benefício pessoal a qualquer custo faz o eleitor esquecer dos interesses do bem comum e da comunidade. Para levar vantagem, vota no vereador amigo. Para tirar um sarro, vota no deputado palhaço. Para ganhar um brinde, deixa de lado a lição de casa.

A Copa já está aí e o povo quer é se divertir. Quer ver os carrões e as cenas de ação dos filmes americanos. Imitar o american way of life mandando foto pro facebook pelo celular maneiro. E se aumentarem em mais vinte centavos a tarifa daquele ônibus sempre lotado, tudo volta a ser culpa do governo.

Não será tudo isso um embuste? Onde está o verdadeiro inimigo?

O inimigo está dentro de nós. Nosso lado imaturo que clama por paternidade eternamente delegando responsabilidades pessoais a entidades externas. Nosso lado mimado que procura algozes a fim de justificar a inércia na vida e o conformismo nos rumos. A vítima sacrifciosa que exige dos outros o que já poderia fazer por si.

Um povo maduro não precisa de líderes. Se auto gerencia. Todos têm consciência de que o bem para si envolve o bem de todos. E mantém investimento constante na ampliação de consciência e evolução pessoal.

Ampliação de consciência e evolução pessoal. Dá trabalho. E tudo isso começa com boas escolas. Gente lúcida escolhe melhor, age melhor. E sabe se representar melhor. Sem precisar de mascaras nem armaduras. "Não é o terno que faz o homem."


segunda-feira, 29 de abril de 2013

a magia do encontro II...



Não reajo necessariamente à pessoa por quem me apaixono.

Ver o outro de verdade, como ele realmente é, é o mais raro acontecimento.

Porque tendemos a interagir com as projeções das fantasias que criamos sobre os outros, e não com os outros em si.

O mesmo não é diferente em nossa relação primeira: a relação que temos com nós mesmos. É difícil interagir com o “eu mesmo” quando em geral reagimos às fantasias que criamos sobre nós.

Eu crio fantasias sobre mim. Crio fantasias sobre os outros. Os outros criam fantasias de si mesmos. Criam fantasias sobre nós. E esses sonhos raramente coincidem. Como duas pessoas que assistem a dois aparelhos de TV na mesma sala. Sequer a programação que assistem é a mesma. Como interagir de verdade assim? Trocamos, no máximo, impressões sobre nossas programações mentais.

O ponto alto é que, se discuto ou me desentendo com alguém, não é com a pessoa real que me desentendo, mas com a fantasia que eu fazia dela. 

Depois digo, crendo-me certo, que o outro me decepcionou. Mas o outro é inconsciente e incapaz de predizer suas atitudes de forma coerente até consigo mesmo. Raramente irá querer me decepcionar propositalmente. Os sociopatas existem, mas não são a maioria. Os zumbis são.

Eu morto-vivo do meu lado. Você mumificando-se do seu. Dois sonâmbulos vivendo em sonhos.

Então se não é com você que me desentendo de verdade, não é a você que devo desculpas ou exijo explicações. Devo entender-me é com as minhas fantasias e com o aparelho que as projeta nas telas da vida. Devo entender-me com minha mente e as crenças que a influenciam comumente.

A fantasia que fiz de você é que me decepcionou pois não pude prever que nem você saberia dizer quem é você de verdade. É a minha mente que devo explicações e a quem devo exigir desculpas por minhas errôneas ponderações. Esse fantasma que assombra meus pensamentos e lembranças, trajado com roupas similares as tuas, simulacro clonado de minhas impressões distorcidas de mundo, dos meus conceitos mal decorados sobre o que é a vida, o que é uma relação e o que é o amor.

Aí percebo que se pouco relacionei-me de verdade contigo, pois pouco relacionei-me de verdade comigo, tudo que sentia jamais poderia ser chamado de amor. Pois tudo que se evidencia nessa confusão é que me falta.

Falta a consciência de mim, de quem sou e do que realmente sinto. Falta a consciência de afeto e respeito. Se não desenvolvo por mim esse afeto e respeito, posto que me desconheço, passo a carecer de elementos que me preencham, que busco na relação com a fantasia que criei sobre o outro.

Toda vez que disse “eu te amo”, menti. Agi movido pela carência.

Ainda agora o que sinto é carência de ti, pois te queria por perto, se possível nua, oferecendo-me afeto. Só posso querer se ainda não tenho. Careço de afeto e respeito por mim.

Se desperto em mim o respeito e o afeto, o amor transborda. Se não me entendo, ao menos me aceito. Feliz. Amo a tudo e a todos. Amo a partir do amor por mim. Deixo de querer de ti e posso finalmente te ver como tu realmente és, sem medo de ferir e sem ansiar pelo teu amor.

O encontro acontece. A magia enfim.


Referencias:

"O Domínio do Amor" - Don Miguel Ruiz

"Apelo ao Amor" - Anthony de Mello, SJ

Para quem manja um pouco de inglês, os vídeos abaixo serão bastante esclarecedores:







Se alguém se dispuser, seria bom fazer as legendas...


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mais escolhas...


Escolhas...

Passaram-se os meses e fiquei me perguntando o que escreveria para dar continuidade a esse tema.

Sobre o que realmente podemos exercer nosso poder de escolha?

Cada vez fica mais presente para mim a diferença entre meus centros de consciência.

Um centro gregário, social, vaidoso, limitado aos cinco sentidos, determinado pela ditadura cultural, automatizado e imaturo que ouso aqui chamar de MENTE.

Outro afetivo, expansivo, transcendente, mágico, puro, que chamo de ALMA.

Recentemente venho percebendo meu dilema como psicólogo profissional e como praticante do oculto referente a esses centros de consciência. Percebo que a confusão está no que se entende da palavra psique e de como às vezes é referida como MENTE, e às vezes como ALMA.

A psicologia parece-me então dividida sob ópticas biológicas e neuroquímicas por um lado e simbólicas e espiritualistas por outro.

Assim também, por vezes, dividimo-nos entre o que a MENTE aconselha apropriado e a ALMA sente justo. No antagonismo, sofro.

Convém perceber que ALMA e MENTE estão a serviço de um centro maior: o “eu verdadeiro”.

Escolhe melhor quem prioriza, visando o bem do todo, o bem estar do “eu verdadeiro”.

Aí a problemática de se encontrar, na prática, dentre tantos centros e instrumentos do ser, o que realmente se define como seu “eu verdadeiro”. Para além do que você pensa, influenciado por sua herança cultural ou por experiências passadas, para além do que sonha, deseja ou teme, o que você realmente sente?

O contato com esse princípio gera sensação de presença, serenidade, sabedoria e prazer. Escolher amparado por essas sensações está para além do que os limites de espaço-tempo poderiam definir. Falamos de uma dimensão transcendente, do reino do inconsciente, e de uma sabedoria profunda, por muitos séculos considerada profana.

O infinito universo do auto conhecimento.

Enfim, com o tempo falaremos mais e mais...

Por hora, quero deixar a disposição os links para os vídeos do encontro com Matias de Stefano ocorrido em São Paulo em 24/03/2013. Um encontro de cerca de 4 horas de duração, mas com temas cujos iniciados se regozijarão.







Mudei minhas primeiras impressões sobre o rapaz. Ele é bom.

E finalizo com o tema das escolhas relacionado ao amor. Ah, o amor!!

"A magia do encontro

Um homem, uma mulher, um encontro.

Não. 
Não são as fantasias e expectativas de realização, os sonhos de algo surpreendente, de um eterno enlace de união.

Não. 
Não os determinismos de eras introjetados em nossas consciências pela cultura, cobrando um ideal de perfeição.

Não. 
Sem promessas nem cobranças. Sem juras de amores para além das encarnações.

Sem a idéia estúpida de que o outro tenha a capacidade de te fazer pleno por gerações e gerações.

Sem os dramas e os medos dos erros e das mágoas. Sem a esperança de ser tudo para o outro e de querer do outro tudo.

Sem querer nem tentar agradar ninguém.

Sem as projeções de angústias advindas de experiências passadas.
Sem as ansiedades das ilusões de perspectivas futuras.

Um homem, sendo apenas ele mesmo. 
Uma mulher, sendo apenas ela mesma.
Um encontro. Nada mais. 

Pois só na pureza da simplicidade a verdadeira magia acontece."


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Escolhas...





O Papa renuncia, um meteoro atinge a Rússia, terremotos na Nova Zelândia, chuvas castigam São Paulo, atentados criminosos em Santa Catarina...

Percebo uma sensação de ameaça, pavor, insegurança e medo.
Parece que nada está sob nosso controle.
Vulnerabilidade. Impotência.

Contrariando todas as expectativas, não tenho poder consciente sobre o clima e as estações, não tenho poder sobre as decisões alheias nem sobre seus humores. Não tenho como prever escolhas nem reações. Nem as minhas. Nem sobre a biologia de meu corpo.

Um vírus pode estar me atacando neste instante, ou um tumor maligno, um câncer, matando-me e não tenho a menor consciência ou poder de decisão sobre estes fatos. Nem o controle sobre meus intestinos é suficiente para livrar-me de um ocasional vexame a partir da inesperada profusão de gases flatulentos, supondo ainda a melhor das hipóteses.

Há poucas coisas sobre as quais posso efetivamente determinar uma decisão, exercitar controle e experimentar precisão de acordo apenas com a minha vontade.

Ter consciência dessa vulnerabilidade faz sentir-me à mercê das mais diversas intempéries. Logo, a primeira sensação pode ser medo. E a possível reação seja procurar alguma maneira de proteger-me e assegurar-me. Procurar uma situação conhecida e confortável que permita o mínimo de estabilidade e domínio. Ainda que ilusoriamente.

Dito assim, é fácil entender a suposição de Freud a respeito da simbiose entre mãe e filho ao longo da gestação humana como momento de plenitude e segurança do ser, marcado pela traumática cisão do nascimento subseqüente que seria então a origem da sensação de ausência que habita o âmago de todos os seres.
Na esperança vã de preencher o vazio, reatar a cisão do nascimento, os humanos buscam constantemente por objetos de afeto. Companheiros sexuais, relacionamentos sociais, comportamentos compulsivos e vícios variados, construção de famílias, de empresas ou qualquer situação de busca de prestígio e realização seriam apenas maneiras de tentar completar-nos, preencher o vazio que nasceu no nascimento do ser.

Estudante do misticismo, a maneira como venho entendendo o budismo, o taoismo, as idéias de Jung, Joseph Campbell, Osho e Jodorowsky, revelam-me algo mais. Coincidindo com as idéias de Don Miguel Ruiz, posso entender o nascimento, a puberdade e a maturação humanos como fases pelas quais a maioria de nós passa sem sequer ter nascido realmente.

O nascimento biológico é um processo animal, natural. Mas o nascimento da consciência de nossa existência, de nossas habilidades e poder de escolha requer outros fatores de âmbitos até sobrenaturais.

A autoconsciência não acontece para todos. Basta observar as ruas na hora do rush para perceber manadas de humanos trafegando em caminhos pré-determinados por seus ancestrais, como formigas determinadas pela programação dos genes, indo e vindo com mentes em devaneio, sem presença de espírito nem consciência profunda de si, repetindo diariamente os mesmos comportamentos.

Não existe liberdade quando você não tem consciência do seu poder de escolha.

Mas se somos tão vulneráveis, se o determinismo genético, as condições mesológicas, as ditaduras culturais e imposições das mídias nos limitam tanto, sobre o que realmente podemos exercer nosso poder de escolha?

Deixo o convite aos meus leitores para argumentarem e tentarem responder esta pergunta antes de dar sequência a essas perturbantes idéias daqui duas semanas.

Sintam-se a vontade para exercer a liberdade de opinião e escrita, deixem seus comentários e análises. Vamos debater....

Até breve!  

sábado, 27 de outubro de 2012

A mente e o cinema



A mente é um aparelho de criação de fantasias e de projeção dessas fantasias na tela da realidade.

Tecnicamente funciona como um cinematógrafo.

O cinematógrafo, nos primórdios da ciência e arte do cinema, tinha dupla função: registrar e imprimir por meio da luz as imagens no rolo de celulóide e projetar essas imagens depois de reveladas na tela de exibições.

Uma câmara escura com uma lente numa ponta (como o cristalino do olho humano) e um filme sensível a luz no extremo oposto (como a retina). O obturador e/ou diafragma faz o papel da pupila, determinando a quantidade e a velocidade com que a luz ambiente entra nessa câmara escura, fazendo registrar a imagem na retina.

Fato é que ao operar uma câmera, posso determinar que porção do ambiente ou da situação pretendo registrar. Posso por exemplo registrar a superfície da pele do corpo humano e, na hora de projetar essas imagens na tela, causar a ilusão de se tratar do solo acidentado de um planeta estranho.

A câmera registra, ou melhor, cria uma aparente realidade, mas muitas vezes sem a gestalt ou verdade da experiência plena. Muitas situações podem receber uma interpretação por serem registradas num plano fechado e terem esse entendimento totalmente reinterpretado se registradas em plano aberto.

Ao projetar essas imagens criadas, transmitimos uma impressão de realidade que tendemos a interpretar sem filtros de consciência ou bom senso. Como na experiência em que os irmãos Lumiere provocaram pânico em alguns expectadores ao projetarem na tela imagens de um trem em movimento. Somos influenciados pelas imagens, sintetizando neurotransmissores e reagindo a elas como se fossem experiências verdadeiras.

Quando chegamos ao mundo nossa mente tem um grande rolo sensível de filme virgem.

Durante nossas primeiras experiências somos influenciados a registrar imagens ao modo do que se costuma registrar em nosso meio. Nossos familiares, responsáveis, pais, professores ou ditadores culturais agem com nossas mentes como quem opera uma videocâmera, apontando o que e como registrar.

Quando não aprendemos a trocar o rolo de filme, tendemos a projetar apenas o que já temos registrado, como uma monótona sessão de cinema que repete sempre a mesma programação de dramas, poucas aventuras e comédias nonsenses.

Urge lembrar que a câmera é nossa e que podemos trocar os rolos. Melhor ainda, aposentar o cinematógrafo e adotar as câmeras digitais, que processam tudo de forma mais simples e fácil, permitindo descartar agilmente o material que não ficou a nosso gosto.

O papel do terapeuta muitas vezes é como o de um técnico que ajuda a pessoa a operar essa máquina de criação e projeção com mais bom senso, descartando as impressões arcaicas ou disfuncionais do meio e procurando conhecer os conteúdos mais originais do EU verdadeiro.

Teoricamente, ao seguir a verdade do próprio espírito, todas as coisas tendem a se encaixar, não há perda. Cada passo dado, cada acontecimento, seja aparentemente classificado de bom ou ruim, é apreciado em sua essência, funcionando para o aprimoramento da experiência de plenitude do ser.

Deixamos de gravar e projetar com os olhos fantasiosos do mundo para gravar e projetar com a essência do espírito. A mente deixa de te direcionar e você passa a direcionar a mente.



Referências:

- Hugo (2011)

- Poder alem da vida (Peaceful Worrior - 2006)

- Cinema e psicologia (por Cristiane Nova e Helen Copque)

domingo, 14 de outubro de 2012

Experimenta !


Saudações leitor!

Proponho hoje uma experiência. Mas para isso é preciso admitir a possibilidade de abalar todas tuas crenças, todas as bases sobre as quais erigiste tua realidade, tuas perspectivas, tua existência.

Dê-se 15 minutos para assistir a este vídeo de Gregg Braden:


A nossa mente não é nossa. É do mundo.

São idéias e crenças vibrando como ondas soltas não se sabe provindas de onde, mas que percorrem a atmosfera sem personalidade nem presença.
Entenda apenas que não nasceram em ti. Isso que comanda tua forma de ver, perceber e entender, não é teu.

Ao sintonizar as idéias e pensamentos e tomá-los para si, você os personifica e alimenta.
Nossos sentimentos é que lhes dão consistência.

Quando vazio de espírito, há carência. Acolhemos as idéias para nos preencher.

Alimento os pensamentos do mundo, que adoto como meus, como quem adota um filho perverso e lhe faz todas as vontades esperando que ele entenda como amor o que são só promessas e fantasias.

Não é teu. Não se engane.
Não se responsabilize pelo que não é teu.
Mas assuma a sua escolha de alimentar e se apropriar, pois isso tem conseqüências às quais arcar e isso a vida vai cobrar.

Você só responde por aquilo que alimenta, aquilo em que acredita e que sustenta. Aquilo em que se apóia na falsa presença de uma consistência que foi VOCÊ quem deu.

A consistência, a energia, a relevância, são nossos. Nenhuma idéia toma força sozinha.

Se uma idéia, uma crença, te faz mal, acorde! A força que as nutre é tua. Recuse-se a alimentá-las e elas definharão por inanição.

As idéias vêm e vão. Alimentar o que te impinge dor, o que te fere e te ofende é um erro. Um mal hábito aprendido pela convivência com os que nos rodeiam e crêm que educam incutindo medo e desprezo pelo que vem da essência do espírito.

O que cremos nosso se materializa. A gente alimenta, sente, firma, dá consistência. Assim formamos nossa realidade.

Mas a realidade não é a verdade.
A verdade, ainda não a conheço, mas sei que seu caminho é o da essência, não da aparência.

A realidade é um sonho que ganhou forma com nossa confiança, nossa crença.

A verdade está no espírito, como semente, latente, aguardando as condições adequadas para germinar, crescer, florescer e se manifestar.
Sua fragrância exala coerência, equilíbrio, presença, permanência.

Num universo de mutações, onde nada permanece, a verdade do espírito é a infinita permanência, a conexão com a força ancestral que habita nossa essência.

É preciso então, no seu tempo, trazer essa verdade para o plano da consciência. Implica crer no que não vemos, no que abala nossas crenças.

Num mundo de “ver para crer” a verdade do espírito parece a divina incoerência. O milagre inexplicável que, não sabemos como, mas quando permitimos, como uma criança marota, se apresenta.

O caminho da “contramão” aparentemente solitário. Mas não se engane pois, ao ouvir teu espírito, tua essência, o universo se manifesta por sinais e te preenche com imensa certeza que vibra no corpo: convicção, coerência.

Os medos, as ilusões e as expectativas, a espera de uma manifestação física de uma colheita que sequer foi plantada é que frustram nossa disposição para se entregar a essa divina experiência.

Parece difícil pois a única certeza é a da incerteza do que nosso espírito pode nos mostrar.

Se faz mal, se causa dor, acorda. Não é teu.
Mas acordar para isso é um exercício, uma mudança de hábito. Exige humildade e paciência.

Como disse minha mãe: “se você ama, vale a pena”.

Ore comigo agora:

“Ah verdade do meu espírito, se manifeste em mim!
Floresce do meu peito e me toma inteiro porque sou teu.
Mostra-me a verdade de quem sou EU.
Liberta-me das ilusões da mente e das crenças do mundo.
Descobre em mim a pureza e a esperteza que o medo perverteu.
Preencha-me!


Deixe se manifestar do teu espírito a tua oração que irá te ajudar a se firmar nessa conexão.

Experimenta!

- Referências complementares:

“Kiriku e a Feiticeira” (França, 1998)



“Os quatro compromissos” (Don Miguel Ruiz, editora Best Seller, 2010)

"Os buracos de minhoca e a auto-estima" (Renato Guenther, 2012)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Óia o trem !



Ontem, quinta-feira 11 de outubro de 2012, por volta das 18 horas, peguei o trem da linha Esmeralda, sentido Osasco, a caminho do Instituto Stanislavsky a fim de ministrar minha aula de Psicologia Analítica aplicada a atuação metódica.

Contente por achar um lugar para sentar, ocupei-me de meu passatempo costumeiro em trens e ônibus: observar e devanear.

Notei uma moça, morena de cabelos lisos tingidos de um tom mais claro, rosto arredondado com bochechas protuberantes marcadas por cicatrizes de espinhas e cravos, feições de quem descende do nordeste, aparente fruto da migração às áreas periféricas desta gigantesca cidade. Até onde percebi, vestia roupas sóbrias de tons escuros, uma simples blusa preta, um jeans colado. Talvez estivesse a caminho da faculdade para um dia de prova depois do trabalho. Um prosaico dia de quem se aperfeiçoa no ofício de operário, de pequena engrenagem da máquina social onde cada um tem um papel na manutenção e continuidade do sistema de vida e de crenças desta sociedade dita civilizada.

Notei quando ela atendeu ao chamado de seu telefone celular. Pareceu rir como quem se percebe vítima de uma brincadeira macabra, “O que? Ah vai, pára!”. Em seguida seu sorriso ingênuo ganhou ares trêmulos, arqueando-se com as pontas para baixo. Suas mãos reproduziram os movimentos de um doente acometido do mal de Parkinson. Seus olhos inundaram-se com o brilho das águas salgadas de um mar de azares, “Pára, não pode ser! Ele não morreu, eu não acredito, eu não acredito. Não brinca comigo. Não! Não!”

A este ponto suas emoções se extravasaram em prantos rasgados, gritos de inconformismo e dor, mobilizando a atenção de todos que ocupavam o mesmo vagão. O silencio geral tomou o ar dos que se entretinham com as amenidades de mais um fim de tarde. Seus gritos e seu choro atravessavam a atmosfera como dardos letais embebidos em veneno, aplacando-nos o peito com palpitações de dor. Soluçava e berrava deixando caído e esquecido o aparelho celular que iniciou todo e estupor, “Não pode ser, não acredito que ele morreu! Mataram o meu namorado!”

O sujeito moreno de terno que dividia o banco, sentado a seu lado, totalmente sem graça, não sabia se a acudia ou se levantava para dar-lhe mais espaço. Outro, no banco da frente, com camisa do Corinthians e jaqueta amarela, tirou seus fones do ouvido transparecendo-se penalizado. Todos pareciam sem ação, porém, de algum modo, sensibilizados.

Uma vida chegava ao fim lembrando-nos todos do princípio da impermanência, de atos e fatos. Senti vontade de levantar-me e abraçá-la a fim de amenizar o choque daquele momento trágico. Queria dizer ao rapaz de terno, de movimentos patéticos que se anulava ao seu lado, para ampará-la, estendendo-lhe os braços. Mas ninguém naquele trem reagia. Apenas observavam, de algum modo tocados.

Em mim surgia a paz serena de um yogue. Algo me dizia “fique atento, observa”. Ao mesmo tempo um misto de pensamentos me inundava. A lembrança da recente briga com minha namorada. E se fosse eu o morto, será que ela se desesperava? Minha tristeza e frustração diante da possibilidade de nosso relacionamento chegar ao fim, recentemente resfriado pelas armadilhas da comunicação falha, das neuroses pessoais e da distância geográfica. O medo da morte, o medo da mudança, o medo do fim. E eu havia dito para ela que, naquele dia em que deixamos de nos falar, seu silencio foi como a morte e minha dor foi como o luto por algo que tanto queria mas que se esvaia diante da impotência nas adversidades. Mas não era eu o morto. Nem minha namorada. E talvez nossa relação reagisse, saísse mais forte e sadia da UTI em que estava internada.

Finalmente alguém quebrou a onda que paralisava o tempo no trem da menina desesperada. Um senhor veio lá do fim do vagão, estendo-lhe a mão e se oferecendo para acompanhá-la até a próxima parada. “Liga para sua família moça, vamos descer para você se acalmar”.

Seu gesto despertou a todos. O corintiano ofereceu seu aparelho celular para que a moça tentasse falar com algum conhecido que a ajudasse. Outra moça do outro lado do corredor, também estendeu seu aparelho oferecendo os créditos pré-pagos para aliviar um pouco a dor. Do banco de trás uma senhora loura e baixa acariciou-lhe os cabelos e também se prontificou a acompanhá-la. Os gritos, o choro e os berros ainda reverberavam fazendo os vidros tremerem. Juntos, o senhor simples de feições rústicas com sorriso solidário, e a senhora loira e baixa, apoiaram a moça amaldiçoada. Desceram com ela na estação seguinte onde de imediato, até onde pude ver, um funcionário da companhia de trens acolheu o grupo, levando a menina triste para uma das cadeiras vazias da parada.

Nos segundos seguintes o vagão lotou e o silencio funesto foi enterrado e esquecido, substituído por sons de conversas rasas e algumas estéreis risadas. Duas moças paradas a minha frente comentavam sobre os ingredientes que se fazem necessários para cozer uma paeja à moda espanhola.   

As engrenagens da cidade que nunca pára esmagavam a dor daquela triste e repentinamente viúva enamorada. Todos voltando às trivialidades de uma vida sem alma, como se nada tivesse acontecido.


O trem da vida anda. Mas e a gente? Quando é que acorda?



segunda-feira, 2 de julho de 2012




É possível ser senhor do próprio destino?

O ser humano tem por habito se gabar por sua capacidade de raciocinar, sobrepondo-se aos outros seres e crendo-se espécie dominante deste planeta.
Criamos ciências, economias, indústrias, religiões.
Mas somos realmente donos de nossas vidas?

Costumo dizer que somos frutos de pelo menos quatro forças principais: genética, cultura, experiências pessoais e acaso.
A combinação destas forças tende a moldar nossa visão de mundo e nossa maneira de ser.

Em nossa arrogância, nos cremos superiores, diferenciados dos outros seres, como se fossemos senhores de nosso destino.
Mas pense bem: quantas vezes você não se frustrou por um desejo não realizado?

Quantas vezes nos esforçamos e fazemos todo o visivelmente possível para alcançar um resultado positivo num aspecto qualquer de nossas vidas e o que encontramos é o amargo do fracasso?

Nossa ânsia de controle e poder sobre a vida é confrontada por detalhes como o tempo, o espaço, a tecnologia vigente, o senso comum.
Não controlamos o transito na hora do rush, não controlamos o clima na hora da chuva, não controlamos o medo na hora do assalto, não controlamos a impotência diante da morte.

Somos formigas na teia do infinito, seguindo trilhas em fila, de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Procurando viver ou sobreviver, coletando, plantando, produzindo, inventando e iludindo. Sonhamos com os bolsos cheios da grana, a mulher amada, a família perfeita. Filhos que darão continuidade à corrida pela produtividade. De casa para o trabalho e do trabalho para casa, seguindo trilhas em fila, como formigas na teia do infinito.


Comparado à idade do planeta, somos apenas a mais recente poeira, que em breve se esvairá com o vento das eras.
Poucos despertam sua consciência para algo mais substancial.

Percebo-nos muito mais marcados por determinismos do que poderíamos querer.

Recentemente, brindei-me com o seriado Força da Vida, veiculado algumas noites na TV Brasil. Trata-se duma produção da NHK (TV pública japonesa) que percorreu vários cantos do mundo registrando imagens da natureza com enredos justapostos pela teoria evolucionista.

O que descobri é que, com nossas pomposas articulações, criando arte, ciência ou cultura, não fazemos mais que a luta pela perpetuação da espécie, nada diferente de todas as outras espécies que co-habitam este mundo. Somos, talvez, mais engenhosos.

Impelidos pelo determinismo biológico disputamos recursos e melhores condições de sobrevivência com nossos adversários das diversas classes de seres, principalmente com os da nossa própria. Daí as guerras.

A maneira específica como criamos estratégias para existir, em grupos, transmitida pelas gerações, forma o que denominamos cultura.
Nascer brasileiro, com nossa história de país colonizado, já carentes de auto-estima e pedantes com nossa própria origem, é outro determinismo.

Somemos a maneira “subjetiva” de encarar as situações, nossas experiências pessoais, e o acaso.

É muita ilusão crer que podemos controlar todas essas influências, sobrepujá-las, com uma mente originalmente influenciada.

Aí chegamos ao ponto. Dificilmente somos puros em nossas condutas e escolhas. Agimos guiados por uma mente fruto das forças do mundo. Uma mente que tende, por impulso biológico de sobrevivência, a lutar para perpetuar sua programação, como o computador HAL 9000 do filme Uma odisséia no espaço.

Para evoluir com dignidade, para a posse real de alguma interferência genuína em nosso destino, é preciso confrontar essa programação mental, a fim de permitir emanações espontâneas do fundo de nosso ser, daquele recôndito que Jung chamou de Self.

... a base da imaginação é não ter imaginação, é conseguir romper com tudo que é imaginário. A partir daí, pode-se fazer tudo o que se quiser.
Se não rompermos com o imaginário, ficaremos sempre na situação de um parasita ...   
(Jodorowsky, Alejandro – Psicomagia – Pág. 263-264)

A maneira como penso, imagino ou percebo minhas experiências agora, não e neutra, mas impregnada de uma história micro e macro cultural, influenciada pela biologia. Qualquer coisa que eu imaginar com esta mente vai reproduzir aspectos dessa história, como um parasita. Nós não somos genuínos. Já nascemos prisioneiros.

Nem teus desejos são verdadeiramente teus. Eis a chave da propaganda.

Para libertar-se é preciso transcender a mente, superar os limites das crenças ou programações pessoais, sobrepujar as influências familiares e culturais.

Como disse Pessoa:


O essencial é saber ver, 
mas isso, triste de nós que trazemos a alma vestida, 
isso exige um estudo profundo, 
aprendizagem de desaprender. 

Eu prefiro despir-me do que aprendi, 
eu procuro esquecer-me do modo de lembrar 
que me ensinaram e raspar a tinta
 com que me pintaram os sentidos,

desembrulhar-me
e ser EU.



E só lembrando, a classe dominante em nosso planeta é a dos artrópodes... 


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