Estive na Bienal do Livro, vou sempre que posso e gosto muito, mas a senti meio compacta este ano, estandes menores, ausência de muitas editoras e livrarias. Senti falta por exemplo do tradicional estande da Comix.
Também ficou evidente o tom "instagramável" que o evento vem ganhando, com muitas filas para poses e fotos em instalações próprias pra isso.
Aproveitei para pesquisar editoras e alternativas para confecção de meu novo livro.
Fiquei muito feliz e entusiasmado com a Fraternidade de Escritores, um grupo de autores independentes que se reuniu para bancar um estande. Deram-me dicas valiosas.
Fascinei-me com a autora e ilustradora Talessak, alem de super simpática, é muito talentosa e corajosa. Conquistou minha admiração!
Aproveitem, o evento ainda tem livros a preços muito convidativos, sessões de autógrafos, distribuição de brindes, shows e palestras. Continua até 15 de setembro. Recomendo!
Bloodshot (2020) é uma ficção de super-heróis com muito ação. Estrelado por
Vin Diesel, é baseado numa história em quadrinhos de mesmo nome, em que um sujeito é ressuscitado e melhorado com emprego de
nanotecnologia, tornando-se um Cyborg (cybernetic organism ou
organismo cibernético) .
A primeira parte nos apresenta um enredo fraco e previsível,
bastante estereotipado, com destaque exagerado às cenas de ação. O
personagem adquire capacidade de regeneração quase instantânea,
forças e habilidades que o tornam uma “máquina de matar”,
saindo em busca de vingança contra aqueles que tiraram sua vida e
assassinaram sua namorada. Porém, com o desenrolar da trama
acompanhamos Bloodshot numa incrível descoberta: suas memórias
foram implantadas e seus sentidos modificados a partir de simulações
para que acredite estar se vingando de seus algozes, mas o soldado
está sendo usado repetidas vezes para eliminar diferentes alvos
predeterminados por seus mentores, como uma arma semiconsciente
manipulada por narrativas fragmentadas.
O personagem de Guy Pearce é a mente distorcida por trás do projeto
nefasto. Curiosamente, é o mesmo ator que interpreta o sujeito
dissociado em Amnésia e também a
inteligência maquiavélica por trás do falso vilão em Homem deFerro III .
Varias ideias e referencias nos vem a mente, passando pela alegoria
da caverna de Platão
até as simulações de realidade do universo Matrix.
É interessante perceber na abordagem do filme como nossa mente é
persuasiva, criando realidades mesmo diante de memórias e sentidos
distorcidos ou pervertidos. Na vida também existem seres mau
intencionados, capazes de tirar proveito das reações imediatas de
sobrevivência e de defesa territorial administradas por nosso
cérebro instintivo e pelo sistema límbico. Podemos reagir
impulsivamente e de forma agressiva diante de meras insinuações, ou
apenas para defender crenças e opiniões, como se estivéssemos
lutando pela própria existência. Esses impulsos podem ser mortais,
pois tratam efetivamente da nossa sobrevivência. Se manipulados com
más intenções tornam-se armas à favor do caos. É assim que
multidões incitadas podem causar estragos irreparáveis em favor de
grupos nefastos. Ou meros debates, como uma discussão no trânsito
ou uma exaltação numa conversa trivial, podem resultar em
tragédias.
Nossa relação com as realidades é envolvente. Não preciso de um
óculos virtual para imergir num mundo virtual. A mente já
proporciona essa experiência imersiva, preenchendo lacunas
informativas com pressuposições, crenças ou lembranças. A
consciência não se expande, mas cresce na direção em que
orientamos o foco de nossos sentidos, analogamente ao fototropismo vegetal.
Há que se examinar com minucia que nesse fenômeno botânico a luz
inibe o crescimento de algumas células de modo que as células menos
expostas à luz continuam crescendo, gerando a curvatura de galhos e
caules na direção que menos cresce, na direção da fonte de luz.
Para que você cresça em direção a minha luz, eu preciso inibir a
abrangência da tua consciência.
Narrativas são como fontes de luz que não contemplam a
verdade como um todo, mas direcionam nossa atenção para apenas
alguns de seus aspectos, limitando realidades.
O Demiurgo
trabalha desse modo, fragmentando e limitando nosso contato com o
Todo, direcionando nossa atenção apenas para aquilo que lhe parece
conveniente.
Vivemos
uma realidade coletiva a partir da manipulação cultural. O excesso
de informação tornou-se o mesmo que informação nenhuma. A falta
de referências confiáveis e a incoerência provocam angústia e
pânico.
Essa
instabilidade costuma ser retratada em romances e filmes de ficção.
Em Eles Vivem (John Carpenter, 1988)
mídia e propaganda usam mensagens subliminares para induzir
comportamentos, aprisionando a humanidade em crenças e conceitos. É
preciso usar óculos especiais para perceber o engodo.
Só
questionando os sentidos e expandindo a consciência podemos perceber
além. É preciso sair da caverna para ver a luz.
O
verdadeiro apocalipse não é coletivo, trata-se de revelação
íntima, revolução íntima. Porém as atuais conjunturas são tão
absurdas que suas silhuetas se transluzem através do manto das
ilusões, tornando esta Era propícia para uma fuga coletiva da
caverna fantástica.
Muitos conhecem a
parábola dos cegos que, sem o saber, foram levados a apalpar um
elefante. Cada cego apalpava uma parte do animal, descrevendo suas
impressões. O que tocou as patas pensou tratar-se dum rinoceronte. O
que tocou a calda chegou a crer que fosse uma serpente. O que tocou a
tromba acreditou ser um polvo. O que tocou as presas descreveu os
chifres de uma vaca. E assim cada um defendeu como realidade aquilo
que descobria. Somente a partir da soma de suas perspectivas poderiam
conceber que a Verdade era maior do que as realidades que podiam
perceber.
É na vastidão da
Verdade que nos atrevemos a viajar, buscando transcender com palavras
as amarras das realidades que cremos e criamos. Uma busca iniciática
de autoconhecimento.
Irmão Lobo é o
personagem mítico que encontrou nas sombras um ponteiro de Luz
incitando-o a esta jornada. Guiado pelas pegadas de outros buscadores
e pelas impressões do Universo Íntimo, a ele recorremos,
atribuindo-lhe os textos e reflexões deste compêndio como estímulo
para a busca da Verdade em nós mesmos.
Sobre a autoria:
Conta-se que, nos
idos do século XIII, Francisco de Assis intercedeu em favor de um
povoado que era ameaçado por um lobo faminto. Com sua fé, encontrou
e acolheu o lobo hostil, que se transfigurou em seu mensageiro.
“Aos que buscam a
Verdade” surge de inspirações, reflexões e canalizações que se
organizaram como obra esotérica. Meditando nestas mensagens é
possível adentrar aos portais da iniciação.
“Quando um homem
aponta a lua, o tolo olha o homem, o sábio olha a lua”. A fim de
evitar que se confunda a mensagem com o mensageiro, optamos por
atribuir a autoria deste conteúdo à personalidade do Irmão Lobo,
pois só a busca da Verdade pode saciar a fome do espírito. Só
quando o faminto encontra alimento pode então transfigurar-se em
mensageiro da obra celeste.
Esta semana assisti
ao filme “Coringa”, com Joaquin Phoenix.
Trata-se de um
primor técnico de fotografia, direção de arte e demonstração do Método numa
atuação majestosa do ator principal. Muito provável que receba o Oscar por sua
eficiência técnica.
Revela-nos, a
partir de contextos plausíveis e até bastante atuais, as origens do
arquiinimigo de Batman.
Mas devemos buscar
nas subliminaridades algumas possíveis intenções não tão nobres.
Desde a Alemanha de
Hitler a arte deixou de servir a Arte. Há sempre um contexto subliminar, uma
intenção velada, ainda mais na indústria do cinema americano que serve tão bem
à publicidade comercial, moldando comportamentos há décadas.
Portanto, as
palavras que se seguem são um alerta.
Já escrevi aqui
sobre as similaridades entre a mente humana e a arte cinematográfica.
Principalmente quando nos referimos às limitações das nossas percepções e à
possibilidade de falsas interpretações das diferentes realidades. Tanto na vida
quanto no cinema, é muito fácil se cometer o engano de tomar a parte pelo todo.
Uma mesma cena pode mudar totalmente sua conotação a depender da perspectiva
adotada. Acrescentam-se requintes técnicos, luzes e trilhas sonoras e corremos
o risco de glamourizar a barbárie.
Longe de qualquer
censura, acredito que “Coringa” deve ser visto por todos, mas acompanhado de intensos
debates.
No decorrer da
história somos apresentados a um pierrot desafortunado que colhe cena após cena
amarguras que não semeara. Na busca pelas origens de sua desgraça, em paralelo
à sua escalada para a glória, sua perspectiva vai sendo alterada pela
insanidade até que seu senso de justiça distorcida nos apresenta à pior das
violências propagando o caos.
É fácil encontrar
na obra a distorção de um discurso político/social, refletindo o burguês
opressor na figura de Thomas Wayne e o proletário revolucionário na imagem que
vai se criando do Coringa. Mas há alguma verdade em se representar a gênese da
loucura e da violência na ausência de vínculos saudáveis.
Em minha prática
terapêutica, vivo atualmente a atormentada realidade de jovens e adolescentes
emocionalmente frágeis e deprimidos, entregues à ilusão das redes sociais,
jogos e vídeos em seus celulares, permeados por pensamentos suicidas e busca
por alívio na dor da automutilação.
Durante as Oficinas
de Roda de Conversa ministradas pela equipe da Dra. Albertina Takiuti, na sede
da Secretaria de Saúde do Estado de SP, aprendi que a criação e manutenção de
vínculos saudáveis é fundamental para a saúde e qualidade de vida do ser
humano.
À partir da
interação com diferentes pontos de vista, convivência saudável com diferentes
tipos de vínculo, ampliamos nossa percepção das realidades, somando impressões
e experiências. É a única forma de um transtornado não se entregar à repetição
de impressões distorcidas e opressivas que povoam sua realidade íntima.
Entenda, as
realidades humanas sempre foram sujeitas aos mais diversos tipos de opressão.
Há apenas cem anos nosso próprio país pautava sua economia na escravidão e
todos sabemos que de alguma forma essa escravidão persiste. Mas o problema
maior é quando internalizamos essa opressão e passamos a acreditar que só ela existe, repetindo em nosso universo
íntimo as torturas e perversidades a que fomos sujeitados externamente. A
repetição íntima dessas posturas sintomatizam a depressão, provocam ataques de
ansiedade e pânico e vêm ameaçando nossa civilização.
A glamorização de um
transtornado mental pode ser perigosa se não for acompanhada do debate. Sugiro
levar esse filme às escolas, reunirmos alunos, pais e mestres e agregarmos às
sessões de exibição grupos de debates engajados na busca de soluções diferentes
a fim de prevenir o sofrimento psíquico e a violência que enlaçam tragicamente o
personagem principal.
Batman e Coringa representam
as duas faces sombrias da mesma efígie de Janus. A figura remanescente do “Louco do Tarot”, profanada e destituída de
sua simbologia iniciática.
A ilusão da
separatividade tem nos assombrado. O abuso moral, americanizado pelo termo bullying, tem corroído as instituições
de ensino, os postos de trabalho e a sociedade. Temos vagado como essas figuras
tristes, os Skeksis e os Místicos do universo de Jim Henson,
recentemente restaurado pela Netflix. A violência não é a resposta, mas sim a
reparação dos vínculos, a reunião em torno do fragmento perdido do cristal encantado.
Amando ao próximo
como a mim mesmo, pois encontro nele meu reflexo, sou forjado para a única revolução
eficiente: a revolução íntima. Transformando-nos e expandindo a consciência,
transformamos naturalmente o ambiente, não da forma infantil que nossa mente
segregada sugere, mas de maneira respeitosa, humilde e reunida à consciência
cósmica, onde o bem pessoal não é destituído do bem universal.
Há alguns meses tive a oportunidade de assistir, em um único
fim de semana, toda a primeira temporada da série Westworld.
Baseada num antigo filme de mesmo nome, explora a idéia de
um parque temático num futuro não muito distante em que visitantes são imersos
numa atmosfera de velho oeste. Recepcionados por robôs que dão vida
perfeitamente a bandidos, xerifes e donzelas, tudo lhes é permitido a fim de
proporcionar uma vivência inesquecível.
Desde o primeiro episódio fui cativado por inúmeros méritos de
produção, fotografia, atuação, mas principalmente pelo enredo.
No cerne da trama o que se vai delineando é a questão ética
diante da possibilidade de os anfitriões, robôs programados para fazer as
vontades dos visitantes do parque, desenvolverem inteligência própria e algum
tipo de “humanidade”.
É a discussão sobre inteligência artificial abordada
anteriormente em vários filmes, como Blade Runner, A. I., Eu Robô e por aí
vai...
Na medida que somos capazes de criar seres inteligentes,
devemos respeitá-los e promovê-los à categoria de cidadãos do mundo?
Lembro daquele filme da sessão da tarde, “Um Robô em curtocircuito (Short Circuit 2 - 1988)” em cuja cena final o robô Johnny Five
conquista a cidadania americana.
Mas minhas observações vão mais além. Em determinada etapa
da história de Westworld, a chave para a inteligência artificial esta num
esquema triangular desenvolvido por um dos criadores, e na busca por um mapa,
um labirinto.
Memória, improvisação e interesse pessoal, seguidos no topo
pela chave de Arnold, que no meu entender remete ao labirinto.
No centro do labirinto, o próprio ser. E o reboot do sistema. Todos os caminhos o
levam a você mesmo.
Percebo, vendo a inteligência artificial como a série nos
mostra, o funcionamento da nossa própria mente e a similaridade com o processo
humano.
Quando a série Matrix estreou em 1999, popularizaram-se
discussões sobre a virtualidade de nosso universo e a idéia de que já vivemos
em uma simulação.
Do mesmo modo, na medida que somos capazes de desenvolver
inteligências artificiais, torna-se grande e evidente a chance de que isso já
tenha acontecido antes.
Imagine que num passado distante uma raça ancestral
necessitava de mão de obra boa e barata.
Imagine, apenas imagine essa possibilidade. Viaje comigo.
Somos esses autômatos, inteligências artificiais criadas
para a execução de trabalhos repetitivos. Frutos da engenharia genética de
inteligências superiores provenientes de diferentes pontos do cosmos, criados
para servir.
Quem se identificou com essa imagem já deve ter ouvido falar
de Zecharia Sitchin e sua controversa interpretação de textos sumérios deixados
em taboas de barro com escrita cuneiforme. Seriamos escravos criados pela ancestral
raça Anunnaki.
Talvez nossos próprios criadores não se tenham percebido
como instrumentos de uma força maior, criando em seus servos mais uma forma de
manifestação do mistério.
Em algum ponto se deram conta de que também abrigávamos a
individualidade e a centelha do divino de modo que a ética cósmica os obrigou a
nos deixar para prosseguir e evoluir sob a responsabilidade do livre arbítrio.
No entanto a memória dos velhos costumes permanece e nos
assombra de modo que passamos a nos diferenciar entre servos e senhores,
imitando como crianças tolas as circunstâncias de outrora.
Em verdade não há servo nem senhor. Assim que nossos
criadores nos deixaram, legaram também o destino a ser moldado por nossas
próprias escolhas.
O funcionamento da mente humana é muito similar a um
computador. Temos uma programação básica inserida pelo processo de socialização
(família, escola, mídia) e se não nos aplicarmos em ampliar nossa base de
informações tenderemos a nos repetir em improvisações pouco criativas, em
atitudes e posturas estereotipadas, esperando resultados diferentes mas
reproduzindo as mesmas estratégias. E ainda assim insistindo na postura de vítima
das circunstâncias.
Na medida em que amplio minha consciência, percebo-me além
de programações obsoletas. Não sou escravo da memória nem me constranjo em desimpregnar-me
dos hábitos de outrora.
O novo ser que se expressa, livre de determinismos, tem como
guia e parâmetro apenas a voz do coração, ressoando a voz da inteligência
cósmica.
O filme é repleto de méritos, a começar pela produção e direção
de arte, a cargo de Cássio Amarante. A paleta de cores em tom sépia dá uma sensação
nostálgica e acolhedora. Cenários, figurinos e objetos de cena remetem eficazmente
à década perdida. Lembra muito o trabalho desenvolvido na série da HBO, “Magnífica70”.
O casamento se completa com a exímia trilha sonora,
totalmente contundente com a época retratada e amalgamada ao contexto, como
exemplo do recente “Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)”, funcionando quase como
personagem da história.
A fotografia é caprichada, passando longe do vício brasileiro
dos três pontos, usado à exaustão nas novelas.
Quanto a Vladmir Brichta, que sempre achei meio canastrão,
faz um trabalho maravilhoso. Talvez porque seu overacting se ajuste à personagem.
Direção e produção se
complementam de maneira competente fazendo o que avalio como um dos melhores
filmes nacionais que já assisti.
Considero um filme competente quando saio do cinema com a
sensação de ter sido transportado para uma época, uma cena ou uma história.
Poderia debater uma série de outros pontos, mas o que mais
me intrigou ao assistir Bingo foi a nostalgia de um tempo em que o
politicamente correto não existia.
Lembro-me das roupas mínimas com que a Xuxa apresentava seu
programa. O auge pra mim, ainda criança, foi ouvir às 10h da manhã aquela música
“Pipi Popô”, enquanto a loira comandava uma gincana de meninos contra meninas.
Eu desliguei a TV naquele dia com vergonha.
Então imagine um Bozo apresentando seu programa totalmente
chapado de cocaína?!
A vida na sociedade dita civilizada tende a ser pautada pelo
senso comum e por isso repleta de hipocrisias.
Desde cedo aprendemos e nos acostumamos com as mentiras.
Toca o telefone, a criança prestativa atende. É a vizinha
chata, a criança tenta passar o telefone para um adulto responsável, mas o que
ela ouve é um pedido indecoroso: “Diz que a mamãe saiu”.
Mais de uma vez já aconteceu a velha anedota, a criança
volta ao telefone e diz, inocente: “Minha mãe mandou avisar que não está”.
Outras distorções são aprendidas, quando a criança vê uma
pessoa muito gorda, ou muito velha, ou muito estranha, aponta o dedo e se
inflama. O adulto responsável ensina: “Não aponta que é feio!”
A criança entende: Não fale o que sabe. Não fale o que
sente. Não fale a verdade. E assim passa a desconfiar dos adultos. Não
educamos. Apenas reprimimos.
De tempos em tempos a hipocrisia social atinge níveis mais
intensos resultando em distorções e censuras excessivas, desproporcionais. Foi
assim durante a sagrada inquisição. Foi assim com o AI5. Recentemente surgiu
uma anomalia semelhante batizada de “politicamente correto”.
Não existe contradição maior do que uma política correta. A
história tem demonstrado que o exercício da política não admite a ética. Não no
nível evolutivo na sociedade dita civilizada.
Então, nestes tempos em que a hipocrisia mais uma vez
impera, surge como bálsamo esse filme, essa memória.
Nostalgia similar me envolveu ao assistir a série “StrangerThings”. Muitos já vinham me recomendando esta série, mas só agora, de férias,
pude investir nela e me senti muito recompensando.
A série trata de um grupo de crianças que se dedica a
encontrar um amigo desaparecido. Telecinese, telepatia, dimensões paralelas e
uma horda de referências à década perdida tornam a atração incontestável.
É interessante imaginar que um bando de crianças consegue
fazer de bobo toda uma organização governamental, acobertando e resolvendo os
mistérios à sua maneira. As crianças da série pouco contam com os adultos,
simplesmente por desconfiar deles.
Os adultos não sabem lidar com a verdade.
Aquilo que não admitimos acaba extraditado para dimensões
paralelas, mas não deixa de existir. Em algum momento o que foi encoberto
ressurge, muitas vezes de forma grotesca e alarmante, a fim de não ser
renegado.
Os monstros precisam ser confrontados, a verdade aceita. Daí
progredimos.
O maior exemplo de grotesco é o próprio palhaço, sempre
presente nas grandes cortes e único capaz de falar todas as verdades sem ser
punido. O palhaço representa esse ser multidimensional, remete à pureza da
infância, a um tempo em que as mentiras não existiam ou não tinham função.
Sinto falta de um tempo em que podíamos rir de nossas
esquisitices. Temo quando os palhaços começam a ser reprimidos. Nunca se sabe
que tipo de monstros podem surgir de outras dimensões.
E o que seria do brasileiro sem sua irreverência?!
Reflexões sobre a Oficina Experimental de Cinema Digital do Centro de Convivência e Cultura de Taboão da Serra - SP
por Renato Guenther
05.01.2017
O cinema é uma arte grupal em sua gênese (MASCARELO, 2006) e só se faz possível numa prática coletiva, pois exige trabalho em equipe, onde todos os componentes são de fundamental importância.
Atuação, cenografia, fotografia, música, edição, entre outros recursos, se mesclam na obra final que se convencionou chamar de filme (ARONOVICH, 2014). O próprio cinema, como arte e produção estética, se mostra uma quimera ao reunir aspectos de diferentes artes antecessoras.
A Oficina Experimental de Cinema Digital do CECO Taboão surgiu em 2009 com a proposta de familiarizar os participantes ao uso das técnicas e tecnologias que envolvem a produção do cinema digital e permitir a expressão de seus anseios, sentimentos e perspectivas através da confecção conjunta de filmes de curta-metragem em vídeo digital, passando por todas as etapas que envolvem o processo. Em paralelo são estudados e discutidos a história do cinema no Brasil e no mundo, os vários tipos de cinema, e ainda exercitadas uma série de habilidades, desde criatividade, foco, atenção, organização, até comunicação, expressão corporal e principalmente convivência em grupo (FONSECA; GUENTHER, 2016).
A cada ano, durante os primeiros encontros da oficina, são discutidos temas de relevância para os participantes, gêneros e estilos de linguagem. São selecionados trechos de filmes, produções de audiovisual, livros e histórias em quadrinhos para referências de arte, enquadramento, linguagem e estilo. Em conjunto escrevemos o roteiro, dividimos a equipe entre atores, atrizes, assistentes de direção e produção, equipe de som, arte e figurino. São feitos ensaios e marcações no cenário que sempre partem das possibilidades oferecidas pela estrutura do CECO Taboão. Programamos os últimos 4 ou 5 encontros para as gravações.
O equipamento e o trabalho de captação de sons e imagens ficam a cargo da Escola de Cinema do Latin American Film Institute (LATIN AMERICAN FILM INSTITUTE, 2016). A partir da parceria voluntária com esta instituição promovemos o intercâmbio de conhecimentos e perspectivas. Em troca, oferecemos a certificação na experiência voluntária de terceiro setor aos profissionais e estudantes da instituição que se dispõe a apoiar o projeto. Montagem e edição ficam a cargo do oficineiro. Em parceria com outros setores e secretarias do município são produzidas cópias da obra finalizada e distribuídas entre todos os participantes.
Desde 2009, já nasceram 7 produções de curta-metragem em vídeo digital e uma oitava produção já se encontra em processo de finalização. Veiculadas em concursos e festivais culturais e pela internet através do blog da oficina, concorremos a premiações e divulgamos os trabalhos realizados em diversos Estados e municípios (OFICINA DE CINEMA DO CECO TABOÃO, 2016).
Ao longo da experiência, conquistaram-se aliados e admiradores através da candura e do encanto inerentes ao projeto e ao passo que surgem os resultados. Porém, a maior realização se faz na franca constatação dos progressos cotidianos dos participantes à medida que se demonstram capazes de expressar e materializar seus anseios. Ao se reconhecerem autores, capazes de criar algo conjuntamente e perceber seu trabalho projetado e contemplado por diferentes audiências, surgem sentimentos de valor próprio, pertencimento e maior integração social, o que colabora para a promoção de saúde como um todo (DIONISIO; YASUI, 2012).
Mas não só o usuário dos serviços de saúde mental do município se torna beneficiado. Ao longo da experiência viemos percebendo também o processo de sensibilização que ocorre com os profissionais, técnicos e voluntários que se doam ao projeto. Também as diferentes audiências que tem oportunidade de conhecer esse trabalho tendem a se comover com o tema da inclusão social do diferente através da arte (CANAL SAÚDE NA ESTRADA, 2016). De fato percebemos um processo de questionamento e conscientização a cerca das fronteiras que delimitam arte e saúde, público e privado, o são e o insano.
Assim como o cinema, esta oficina já nasceu marcada por hibridismos. Constitui um fenômeno que carrega em si características distintas de diferentes espécies. Produto da arte e das linguagens estéticas, encubada por um equipamento de saúde pública municipal, mas em parceria com uma instituição de ensino particular. Mescla formas, conteúdos, histórias e pessoas em prol do objetivo comum de materializar sonhos.
Quimera, não como o monstro da mitologia grega, parte leão, parte cabra, parte serpente, que cuspia fogo e aterrorizava aldeões (BRANDÃO, 1987). Uma anomalia, produto incidental do estupro da necessidade de dar voz aos inoportunos e da carência de recursos e condições.
Sonho que se sonha junto (SEIXAS, 1974), vem transpassando fronteiras e se mostrando forte como a realidade.
No CECO Taboão, cada filme produzido é uma gestação coletiva. Durante a criação de roteiro, personagens e cenários, cada participante colabora a seu modo, respeitado em suas limitações e estimulado em suas habilidades, de modo que ao final não se pode atribuir o filho a um único pai.
Quanto aos recursos utilizados, partimos inicialmente das disposições do equipamento público municipal. Mas cada participante acaba colaborando, trazendo peças do próprio guarda-roupas para compor o figurino ou da própria moradia para compor o cenário. Muitas vezes aproveitamos sucata ou objetos desprezados por outros, fazendo o melhor uso possível do que temos, alinhando as possibilidades de cada indivíduo com o tempo, espaço e até as condições climáticas disponíveis.
Inicialmente, quando Nise da Silveira fez uso da arte em asilos manicomiais, também sua ousadia e inovação foram vistas com incredulidade (BERLINER, 2016). Diante de tanto ardor e dedicação, enfrentando tantas limitações das mais diversas ordens, fica claro que não se trata de algo fácil. Mas se faz imprescindível perceber cada produção como algo lúdico, divertido: causa e conseqüência da necessidade humana de convivência em grupo.
Assim, alguns eixos fundamentais se delinearam:
- Binômio Arte e Saúde
- Parcerias público/privadas
- Gestações grupais
- Eficiência : “fazemos o melhor com o que temos”
- Diversão : “se não for gostoso não vale a pena”
- Inclusão
Mas se esta oficina não se compõe de meros retalhos ao modo dum monstro como fez o personagem de Mery Sheley no romance Frankenstein (ARAUJO, 2016), o que fermenta seu trabalho?
Segundo Vieira (1999), cosmoconsciência é a condição ou percepção interior da consciência do Cosmos, quando a consciência sente a presença viva do Universo e se torna una com ele. O termo é um neologismo para uma condição descrita anteriormente por outro ilustre acadêmico: Richard Maurice Buke.
Buke foi, entre outras ocupações, psiquiatra e dirigente de asilos para insanos no Canadá, nos idos de 1870. Reformista e inovador no tratamento de alienados, nutria estreita admiração pelo poeta americano Walt Whitman, de quem foi amigo e biógrafo (HARRISON, 1990).
Em 1901 teria publicado sua grande obra, “Consciência Cósmica” em que trata do fenômeno impar que deu nome a seu livro.
Falando de maneira simplista, o fenômeno consistiria numa espécie de expansão de percepção e entendimento, aliado a manifestações físicas bastante marcantes. O estado máximo de consciência do ser humano em que ressignifica sua experiência de existir, percebendo além das fronteiras aparentes. Algo a não ser narrado, mas experimentado e que o próprio autor tentou descrever assim:
Entre outras coisas em que não chegou a acreditar, percebeu e compreendeu que o Cosmo não é matéria morta e sim uma Presença viva; que a alma do ser humano é imortal; que o universo é tão bem estruturado e ordenado que, sem qualquer possibilidade de erro, todas as coisas trabalham juntas para o bem de cada uma delas; que o principio fundamental do mundo é o que chamamos de amor e que a felicidade de cada um é a longo prazo absolutamente certa. (BUKE, 1996, pág. 43)
Tal fenômeno equivaleria ao que as mais diversas correntes místicas definiriam como iluminação (WHITE, 1997). Estado de percepção de que estamos todos ligados e funcionando em harmonia com uma vontade, que ao mesmo tempo é a vontade de todos e uma vontade maior: transcendente.
Para além do misticismo, Buke descreve a consciência cósmica como um estado a que o ser humano evoluirá naturalmente assim como evoluiu um dia de uma consciência simplista para a autoconsciência.
Porém não é interesse deste artigo navegar em águas turvas, mas traçar um paralelo entre o fenômeno descrito por Buke e a prática observada na Oficina Experimental de Cinema Digital do CECO Taboão, pois os trabalhos relacionados aos cuidados com os mentalmente transtornados vêm se valendo cada vez mais de diferentes práticas e olhares, intersetoriais e multiprofissionais (AMARANTE, 2008).
Segundo Lopes (2015), em um Centro de Convivência, o conceito de “nós” é diferente do conceito de eu e o outro, “implica como um abraço probiótico que mistura perfumes dos corpos distintos quando esse abraço se dá.” (LOPES, 2015, pág. 28)
Quando nos percebemos borrando fronteiras (TAMIS, 2016) entre arte e saúde, publico e privado, são e insano, cidadania e exclusão, sonho e realidade, convém questionar se as fronteiras realmente existem ou se são mera reação à inconsciência de um sistema maior. De fato, como equipamentos e sistemas que deveriam funcionar em rede, percebemo-nos como desbravadores deste estado de consciência maior, não criando um monstro, mas trazendo luz para as possibilidades existentes, amadurecendo e evoluindo na prática de saúde mental: expandindo consciências.
Nos interessa portanto questionar e refletir se esta experiência não representaria a manifestação espontânea de ao menos um sussurro do processo de transcendência da ilusão de separação (OSHO, 2006) determinada pelo ego analítico humano.
Existimos mutuamente, somos membros uns dos outros.
A consciência é um vasto oceano e ninguém é uma ilha.
Nós nos encontramos e nos fundimos uns nos outros.
Não há fronteiras.
Todas as fronteiras são falsas.
(Tilopa em: OSHO, 2006, pág. 230)
REFERÊNCIAS
AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Editora
Fiocruz, 2008.
DIONISIO, G. H.; YASUI, S. Oficinas
expressivas, estética e invenção. In: AMARANTE,
P.; NOCAM, F. (Org.). Saúde mental e
arte: práticas, saberes e debates. São Paulo: Zagodoni, 2012, p.53 – 65.
FONSECA,
E.; GUENTHER, R. Oficina Experimental de
Cinema Digital do Centro de Convivência e Cultura de Taboão da Serra, In: V
Prêmio David Capistrano de Experiências Exitosas na Área da Saúde 2015. Boletim
do Instituto de Saúde, Vol. 16, sup., novembro de 2015, p.37 - 40. Disponível
em: http://www.saude.sp.gov.br/resources/instituto-de-saude/homepage/bis/pdfs/bis16suplemento_web.pdf . Acesso
em: 27 out. 2016.
LATIN AMERICAN FILM INSTITUTE. Site
institucional. Disponível
em: http://lafilm.com.br Acesso em: 27 out. 2016.
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Intriga-me a percepção do antagonismo na vida. Eu não creio em crises.
O inimigo, o problema, o percalço, o desafio, o difícil.
Uma situação pode ser classificada como difícil quando ainda não tenho familiaridade com ela, quando me faltam as habilidades necessárias para sua dissolução.
Para a criança que engatinha, o difícil é conseguir andar. Para o estudante secundarista, o difícil é a matemática científica.
Ainda falta o exercício, o entendimento, a compreensão. Falta o treino da habilidade. Falta a maturidade. É difícil, mas não é impossível.
O treino das habilidades necessárias para tornar o difícil em algo trivial pode ser encarado como um desafio, uma aventura, uma diversão. É gostoso crescer, aprender, desenvolver-se, evoluir. Não há nada de amedrontador em evoluir. Ou pelo menos não deveria haver.
Então de onde vem o terror, o medo, o drama que torna a passagem natural da evolução num martírio de dor, sofrimento e lamentação?
Basta um pouco de observação para entender que, para a vida, harmonia tem relação com o movimento, o orgânico, o curvo, o arredondado.
Tudo no cosmos está em movimento, intercalando momentos de contração e expansão. Tudo se transforma e evolui. É a natureza da vida, do cosmos, do todo.
Mas se o natural é movimento e evolução, se as novidades existem para que nos adaptemos a elas desenvolvendo novas habilidades, por que nossa mente tende a encarar os desafios como dificuldades?
Nossa mente tem uma programação que prefere o cômodo, o padronizado, o uniforme, o reto, mas não necessariamente o harmônico.
Tudo que nos tira do conforto de nossas certezas encaramos com inimizade, dissabor e medo.
Que programação perturbadora é essa?
Surge então a figura do demiurgo, o “deus falso”, o “eu limitado”, criador de realidades frágeis e incompletas.
Recentemente assisti ao filme Snowpiercer (2013 - aqui horrendamente intitulado como “O Expresso do Amanhã”) que retrata os últimos remanescentes da espécie humana tentando sobreviver em um trem expresso deslizando sem parar no que seria um planeta Terra congelado, dominado por uma era do gelo artificial.
O trem é uma metáfora da eterna distribuição da humanidade, em que a maioria desvalida e oprimida sobrevive aos abusos de uma minoria abastada. Uma verdadeira ditadura de classes: aos ricos, cabines luxuosas e sushi de salmão; aos pobres, amontoados na calda do veículo, ração a base de insetos. É também uma aula de marxismo. A solução está na revolução. Vemos Chris Evans interpretando o líder operário (óps!), digo, revolucionário, numa tentativa de tomar o comando da locomotiva e libertar o povo da opressão capitalista. Porém, é no encontro com o maquinista que vemos a fragilidade do sistema e ao mesmo tempo a sedução do poder. Isso porque nosso líder operário não se dá conta de que suas pretensões eram previstas e até planejadas pelo próprio maquinista do trem. A revolução é um embuste necessário para prover um rebbot de manutenção do sistema (algo parecido com a revolução de Zion e o encontro entre Neo e o Arquiteto na trilogia Matrix). A verdadeira saída mesmo é tirar o trem dos trilhos, destruir a ilusão de ordem e caos, desmembrar-se da falsa realidade, solução perceptível apenas aos que tem olhos de ver e ouvidos de ouvir.
Da terra congelada continuamos no universo dos apocalipses climáticos e chegamos a Interestelar (2014). Vemos nosso planeta desolado por pragas. Incapacitados de produzir alimentos, aos homens resta apenas procurar outro planeta para dizimar. Matthew McConaughey interpreta o astronauta que lidera uma expedição por um buraco negro, ou buraco de minhoca, até outro quadrante do universo com três novos planetas em condições promissoras para a manutenção da vida. Enfrenta toda uma série de percalços até ser sugado para a singularidade e transportar-se para um ponto distinto do espaço-tempo. Lá descobre-se agente das causalidades que perscrutaram seu destino. Novamente vemos a sombra do demiurgo tentando premeditar e planejar com seu senso de percepção limitado. Só na humildade diante do desconhecido pode o homem assumir o poder divino de conduzir o próprio destino, permitindo-se fluir com o infinito.
O problema do demiurgo está na arrogância de crer-se conhecedor do todo. Coloca-se soberano, acima do inconsciente que na verdade desconhece e teme. Articula com minúcia de detalhes a partir do universo conhecido, criando a própria realidade. Mas a grandiosidade da vida abrange também o desconhecido. A vida age sabiamente e escreve sempre certo sem precisar de linhas. Para o demiurgo, tudo que sai da linha lhe parece errado. Luta para defender seu reino frágil, repetição após repetição, até que um dia seu orgulho se esgote e volte a se colocar novamente a serviço da vida como um ser inteiro, percebendo-se parte do todo verdadeiro ao invés de reinar apenas sobre fragmentos.
Humilde, rendido a vida, pode então canalizar a sabedoria máxima, a força búdica ou crística, experimentando a consciência cósmica.
Esse exercício de humildade vemos no relato de Alejandro Jodorowsky no documentário Dune (2013). Todo esmero e minúcia dedicados ao maior filme de ficção científica que jamais foi filmado. Mas a lição está lá, na sua própria versão da história, na força crística finalmente revelada.
Sair do sistema é desmembrar-se da realidade criada por um deus falso. Esse deus habita nossas mentes como uma programação.
No filme Garoto 7 (Boy 7, 2015) vemos essa tentativa de acorrentar os desviados. Essa força gravitacional habita a sociedade e as culturas atraindo todos os seres para baixo. Mas é ao alto que se destina nosso espírito. Não precisamos extrair cirurgicamente o chip magnético que nos foi implantado, pois ele não é físico. Ele é frágil como uma crença infundada. E quando enfrentamos essas crenças infundadas, nossa consciência se expande. As crises de verdade não existem. São momentos de reboot do sistema, oportunidades para desmembrarmo-nos das falsas realidades e expandir nossas consciências.
A “crise” pode sim, momentaneamente, diminuir o poder de compra de meu salário, prejudicar minha liberdade de ir e vir, amedrontar-me quando estou desmemoriado, mas ela não existe nem é real, pois não pode jamais se abater sobre meu espírito.
O que fazer com os
demônios que co-habitam seu interior?
Sou fã de duas séries
especiais que tento acompanhar com afinco. Uma delas é The Walking Dead, sobre as
agruras de um grupo de sobreviventes em um futuro pós-apocalíptico dizimado por
uma praga zumbi. A outra é The Game of Trones, sobre os jogos de poder pelo trono em um mundo fantástico de
feiticeiros, dragões e cavaleiros medievais.
As duas séries são
aclamadas e acompanhadas no mundo todo. Até pelo tempo e sentimentos que nos
mobilizam, tento evitar séries e novelas. Mas quando uma produção te pega, aí é
fogo! Você não consegue ficar sem acompanhar, espera ansioso pelos próximos
episódios, etc. etc. e etc.
Os estúdios americanos
têm investido pesado em series nos últimos anos e parte do investimento se deve
a serie Lost, que rendeu milhões com seus mistérios mal explicados.
Fato que as séries
acabam sendo uma opção mais lucrativa que as produções cinematográficas e tem
sido feitas com o mesmo capricho.
Nessa espera entre os
intervalos de uma série e outra que conheci Penny Dradful, uma produção
americana de época, com o clima soturno da Inglaterra vitoriana, repleta de
personagens da literatura de terror como vampiros, lobisomens, bruxas, caçadores
de monstros, Frankstein, etc.
Nostálgico, lembro de
minha época de Buffy, a Caça-Vampiros, mas com uma produção muito mais
elaborada, interpretações marcantes, muita sensualidade e tramas melhor
elaboradas. Só a presença de astros e estrelas como Timothy Dalton e Eva Green já valorizam a obra.
O enredo também tem o brilhantismo de repetir de forma exitosa a iniciativa de Allan Moore ao misturar personagens de obras distintas como na HQ A liga dos Cavalheiros Extraordinários.
Mas o que tem me intrigado em Penny Dreadful é a habilidade de abordar um tema tão interessante como o do monstro interior.
Sou psicólogo por formação e adoro o que faço. Mas sempre dizia que se não fosse psicólogo, seria fotógrafo de mulher pelada. Afinal, por que impor condições, não é mesmo??? Participei do workshop CruaFlor, com Alberto Prado e Susi Godoy, duas das figuras mais expressivas quanto a fotografia sensual no Brasil atualmente. Os dois, cada um a sua maneira, fazem trabalhos dignificantes com as formas femininas. Proporcionaram-me uma experiência realmente marcante, a ponto de me fazerem acreditar que possa ousar lançar-me num projeto de nu fotográfico em breve. Foi emocionante. E alem de tudo conheci pessoas especiais.
Seguem abaixo alguns dos resultados da experiência:
Do escondido ao revelado, formas femininas ondulam em
mimetismo com o ambiente, um felino oculto como um sussurro na noite. Eis meu
ensaio no workshop CruaFlor com a modelo Thays Vita. Alberto Prado e Nicholas
Modesto figuram como modelos incidentais. A câmera usada foi uma Olympus VG120.
As imagens não passaram por nenhum tipo de tratamento. Numa palavra: lisérgico.
Então uma gata brava é jogada sobre a cama. De repente se
aninha, sente-se segura e se extravasa em ternura. Essa é Bia Machado, sob as
lentes da Olympus VG120 que peguei emprestado de minha mãe para os ensaios do
workshop CruaFlor.
Mais Bia Machado, desta vez com as lentes do celular Samsung
Galaxy GT-I5500B. Nenhuma das imagens passou por tratamento.
Juro que tentei ser econômico com a publicação de todas essas fotos, mas é duro fazer cortes quando a gente gosta de tudo. Talvez meu senso estético seja deturpado, medíocre, sei lá, mas gostei muuuito dos resultados que alcancei. Quem sabe investindo um pouco mais...