sábado, 24 de dezembro de 2011

Amor Neurótico X Amor Maduro

Grouxo Marx disse: “Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio”.

Esta me parece a melhor definição de neurose.

A neurose é a doença psicológica que nos faz humanos. Todo ser humano dito normal é, no mínimo, um neurótico.

Alguém já conseguiu curar-se de todas suas neuroses? Talvez os iluminados, aqueles que transcenderam o ego infantil e influenciável com o qual tendemos nos guiar.

O pior da neurose está na forma como conduz nossas relações. O amor infantil, daquele que projeta no outro a origem dos seus problemas e espera do outro todas as soluções e respostas.

Na neurose, somos dependentes, irresponsáveis e imaturos. A culpa está lá fora. O governo, a família, o sistema, a sociedade. A culpa é dos pais. A culpa é de Deus. Por que ele não fez um mundo perfeito?

Imagine engendrar um relacionamento, tentar amar, com essa mentalidade. Qualquer resultado só pode ser catastrófico, pois na neurose somos infantis e projetamos no outro tudo. Iludimo-nos com a idéia de fazer tudo pelo outro na eterna espera de que o outro supra nossas mais secretas necessidades.

Na Neurose não existe amor próprio. Não há auto-estima. Por isso quando o outro diz que te ama, você não acredita. Como alguém pode amar uma criatura como você???

Daí a necessidade eterna de testar este dito amor. Começam os jogos neuróticos. Você se doa e espera doação extrema. Mas sem nunca ter definido antes as regras de conduta com seu parceiro. Falamos meias palavras, insinuamos, e esperamos compreensão plena.

Como algo assim pode “dar certo”?

Alguns filmes me vêm à memória para ilustrar o que digo.

No francês “Me diz se sou bonita” (J´me sens pás belle - 2004) vemos uma jovem digladiando-se contra seus próprios pensamentos e crenças na tentativa de uma noite de paixão com um colega de trabalho. Chega a ser engraçado ver suas ações conduzidas pela visão negativa que tem de si mesma.

Na neurose, não existimos para nós mesmos. Precisamos do aval do outro para crer que existimos. Então sacrificamos nossa natureza, vestimos um personagem que, cremos, irá agradar ao outro. Esse processo tende a se iniciar na infância quando buscamos a aprovação e a atenção dos nossos neuróticos responsáveis. E assim permanecemos nos relacionamentos, apesar da aparência adulta. Filho de neurótico, neuroticuzinho é!

“Em busca do prazer” (The OH in Ohio - 2006) dá um passo adiante exibindo as influências da neurose na sexualidade humana. O neurótico almeja ser a fonte de prazer infinito do seu parceiro e espera dele, no mínimo, o mesmo. Mas sem nunca falar da relação como uma troca lúcida/lúdica. Vemos a personagem de Parker Posey na sua epopéia em busca do orgasmo pleno, enfrentando suas neuras, amadurecendo e se assumindo como mulher merecedora de prazer. Rimos de suas tentativas e gozamos com sua coragem.

Muitos desistem da busca de felicidade nos relacionamentos e acabam migrando para um estilo de vida monástico, isolado, distante, às vezes celibatário, mas quase sempre falsamente maduro.

“Amor sem escalas” (Up in the air - 2009) foi um dos filmes que mais me surpreendeu nos últimos tempos. Vemos George Clooney atuando como um consultor que demite funcionários para empresas por toda América. Na verdade há toda uma mística arquetípica travestida de modernidade. A personagem de Clooney age como um monge missionário, eremita-andarilho, engendrando uma filosofia quase budista de desapego. Nas horas vagas palestra sobre o essencial a se levar numa mochila. Em certo ponto encontra uma discípula no melhor estilo padauan de Star Wars. E como todo buscador espiritual, almeja a iluminação, o encontro do santo graal, o cartão vip ouro daqueles que atingem o número máximo de milhas de sua companhia aérea. Seu derradeiro encontro com o comandante da aeronave remete aos encontros místicos com os sábios ocultos, quando ganhamos o direito de fazer a pergunta crucial de nossas vidas. E vemos mais um bobo que, como todo neurótico, sonha com uma vida perfeita de comercial de margarina. E assim o filme nos deixa, às portas da saudável e necessária desilusão, remédio doloroso mas necessário para aquisição da maturidade.

E finalmente uma pérola recente, adaptada da linguagem de vídeo-game e dos quadrinhos: “Scott Pilgrim contra o mundo” (Scott Pilgrim VS. The world - 2010). Vemos um jovem que amadurece e desenvolve suas habilidades ao longo da jornada pelo amor de uma garota, enfrentando seus letais ex-namorados. A linguagem é quase didática. A cada superação, uma nova fase. E no final, só a auto-estima pode ser a chave para um verdadeiro amor.


Pessoalmente, ainda estou engatinhando em matéria de amor. Mas sou capaz de traçar algumas compreensões.

Só aquele que realmente se ama pode amar ao próximo.

Um amor que exige provas não pode ser um verdadeiro amor.

O amor verdadeiro liberta. O amor verdadeiro faz bem. Se você se sente mal ou preso, não sente amor. Sente carência.

Quem nos completa somos nós mesmos. O outro é apenas um companheiro de viagem, alguém com quem compartilhar sentimentos e experiências.

Amar é trocar bênçãos.

Um amor maduro não segue regras lógicas. Por isso é incomparável e novo a cada instante.

E definitivamente quero estar em um clube em que sou aceito do jeito que sou. O clube da auto estima.

3 comentários:

Manoel Lima disse...

Perfeito mestre!
Magnífico texto!
Também tenho dito que: "Aquele que, antes de tudo, não tem amor por sí mesmo, não está capacitado para amar coisa alguma."
Parabéns! Sou teu fã.
Abraço
manoellima-oviajor

tais disse...

Bela mensagem. Seguimos aprendendo...sempre.
Bjusssss

Franciely disse...

Muito bom! Fascinante de ler e muito interativo! O assunto é realmente muito bom. O mais legal é saber que nós, leigos, podemos ter acesso a explicações psicológicas frente à neurose de uma forma clara e objetiva!