sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Óia o trem !



Ontem, quinta-feira 11 de outubro de 2012, por volta das 18 horas, peguei o trem da linha Esmeralda, sentido Osasco, a caminho do Instituto Stanislavsky a fim de ministrar minha aula de Psicologia Analítica aplicada a atuação metódica.

Contente por achar um lugar para sentar, ocupei-me de meu passatempo costumeiro em trens e ônibus: observar e devanear.

Notei uma moça, morena de cabelos lisos tingidos de um tom mais claro, rosto arredondado com bochechas protuberantes marcadas por cicatrizes de espinhas e cravos, feições de quem descende do nordeste, aparente fruto da migração às áreas periféricas desta gigantesca cidade. Até onde percebi, vestia roupas sóbrias de tons escuros, uma simples blusa preta, um jeans colado. Talvez estivesse a caminho da faculdade para um dia de prova depois do trabalho. Um prosaico dia de quem se aperfeiçoa no ofício de operário, de pequena engrenagem da máquina social onde cada um tem um papel na manutenção e continuidade do sistema de vida e de crenças desta sociedade dita civilizada.

Notei quando ela atendeu ao chamado de seu telefone celular. Pareceu rir como quem se percebe vítima de uma brincadeira macabra, “O que? Ah vai, pára!”. Em seguida seu sorriso ingênuo ganhou ares trêmulos, arqueando-se com as pontas para baixo. Suas mãos reproduziram os movimentos de um doente acometido do mal de Parkinson. Seus olhos inundaram-se com o brilho das águas salgadas de um mar de azares, “Pára, não pode ser! Ele não morreu, eu não acredito, eu não acredito. Não brinca comigo. Não! Não!”

A este ponto suas emoções se extravasaram em prantos rasgados, gritos de inconformismo e dor, mobilizando a atenção de todos que ocupavam o mesmo vagão. O silencio geral tomou o ar dos que se entretinham com as amenidades de mais um fim de tarde. Seus gritos e seu choro atravessavam a atmosfera como dardos letais embebidos em veneno, aplacando-nos o peito com palpitações de dor. Soluçava e berrava deixando caído e esquecido o aparelho celular que iniciou todo e estupor, “Não pode ser, não acredito que ele morreu! Mataram o meu namorado!”

O sujeito moreno de terno que dividia o banco, sentado a seu lado, totalmente sem graça, não sabia se a acudia ou se levantava para dar-lhe mais espaço. Outro, no banco da frente, com camisa do Corinthians e jaqueta amarela, tirou seus fones do ouvido transparecendo-se penalizado. Todos pareciam sem ação, porém, de algum modo, sensibilizados.

Uma vida chegava ao fim lembrando-nos todos do princípio da impermanência, de atos e fatos. Senti vontade de levantar-me e abraçá-la a fim de amenizar o choque daquele momento trágico. Queria dizer ao rapaz de terno, de movimentos patéticos que se anulava ao seu lado, para ampará-la, estendendo-lhe os braços. Mas ninguém naquele trem reagia. Apenas observavam, de algum modo tocados.

Em mim surgia a paz serena de um yogue. Algo me dizia “fique atento, observa”. Ao mesmo tempo um misto de pensamentos me inundava. A lembrança da recente briga com minha namorada. E se fosse eu o morto, será que ela se desesperava? Minha tristeza e frustração diante da possibilidade de nosso relacionamento chegar ao fim, recentemente resfriado pelas armadilhas da comunicação falha, das neuroses pessoais e da distância geográfica. O medo da morte, o medo da mudança, o medo do fim. E eu havia dito para ela que, naquele dia em que deixamos de nos falar, seu silencio foi como a morte e minha dor foi como o luto por algo que tanto queria mas que se esvaia diante da impotência nas adversidades. Mas não era eu o morto. Nem minha namorada. E talvez nossa relação reagisse, saísse mais forte e sadia da UTI em que estava internada.

Finalmente alguém quebrou a onda que paralisava o tempo no trem da menina desesperada. Um senhor veio lá do fim do vagão, estendo-lhe a mão e se oferecendo para acompanhá-la até a próxima parada. “Liga para sua família moça, vamos descer para você se acalmar”.

Seu gesto despertou a todos. O corintiano ofereceu seu aparelho celular para que a moça tentasse falar com algum conhecido que a ajudasse. Outra moça do outro lado do corredor, também estendeu seu aparelho oferecendo os créditos pré-pagos para aliviar um pouco a dor. Do banco de trás uma senhora loura e baixa acariciou-lhe os cabelos e também se prontificou a acompanhá-la. Os gritos, o choro e os berros ainda reverberavam fazendo os vidros tremerem. Juntos, o senhor simples de feições rústicas com sorriso solidário, e a senhora loira e baixa, apoiaram a moça amaldiçoada. Desceram com ela na estação seguinte onde de imediato, até onde pude ver, um funcionário da companhia de trens acolheu o grupo, levando a menina triste para uma das cadeiras vazias da parada.

Nos segundos seguintes o vagão lotou e o silencio funesto foi enterrado e esquecido, substituído por sons de conversas rasas e algumas estéreis risadas. Duas moças paradas a minha frente comentavam sobre os ingredientes que se fazem necessários para cozer uma paeja à moda espanhola.   

As engrenagens da cidade que nunca pára esmagavam a dor daquela triste e repentinamente viúva enamorada. Todos voltando às trivialidades de uma vida sem alma, como se nada tivesse acontecido.


O trem da vida anda. Mas e a gente? Quando é que acorda?



Um comentário:

Eduardo Ceraldi disse...

Bela reflexão.

Quando uma engrenagem quebra ou espana, o que não faltam são peças de reposição. Rapidamente é substituída, e a máquina segue com seu movimento, initerrupto, implacável, sempre trabalhando a serviço de... De quem mesmo?

Vejo muita coisa boa sendo perdida em meio a essa agitação. O trem da vida anda mesmo. E a gente não só não acorda, como como não sabe pra que direção ele nos leva...